Apresentação

Espaço para a apresentação e análise de estudos e pesquisas de alunos da UFRJ, resultantes da adoção do Método de Educação Tutorial, com o objetivo de difundir informações e orientações sobre Química, Toxicologia e Tecnologia de Alimentos.

O Blog também é parte das atividades do LabConsS - Laboratório de Vida Urbana, Consumo & Saúde, criado e operado pelo Grupo PET-SESu/Farmácia & Saúde Pública da UFRJ.Nesse contexto, quando se fala em Química e Tecnologia de Alimentos, se privilegia um olhar "Farmacêutico", um olhar "Sanitário", um olhar socialmente orientado e oriundo do universo do "Consumerismo e Saúde", em vez de apenas um reducionista Olhar Tecnológico.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Óleo de Prímula: nutrition or health claims?





Prímula é o nome da planta da espécie Oenothera biennis. Nativa da América do Norte, que atinge em torno de 1 m de altura e produz flores amarelas. O óleo de prímula é obtido das sementes dessa planta e muito rico em um tipo de ácido graxo essencial da família do Ômega-6 denominado ácido gama-linolênico (GLA), reconhecidamente benéfico para a saúde. Porém, este seria classificado como suplemento alimentar ou um produto para fins de saúde?


Os alimentos funcionais parecem desafiar a clara distinção entre alimento e medicamento, o que pode levar a confusão. Portanto, é importante rever a relação entre alimentos e medicamentos para tornar clara a finalidade dos alimentos funcionais.

Segundo Kruger & Mann (2003) ingredientes funcionais são definidos como um grupo de compostos que apresentam benefícios à saúde, tais como as alicinas presentes no alho, os carotenóides e flavonóides encontrados em frutas e vegetais, os glucosinolatos encontrados nos vegetais crucíferos os ácidos graxos poliinsaturados presentes em óleos vegetais e óleo de peixe. Estes ingredientes podem ser consumidos juntamente com os alimentos dos quais são provenientes, sendo estes alimentos considerados alimentos funcionais, ou individualmente, como nutracêuticos. Entretanto, estes produtos devem ter adequado perfil de segurança para consumo humano e não devem apresentam risco de toxicidade ou efeitos adversos de drogas medicinais (BAGCHI, et al., 2004).

O óleo de prímula vem sendo estudado para tratar de diversos problemas de saúde, entre eles destaca-se seu uso para aliviar os sintomas da tensão pré-menstrual (TPM) nas mulheres além de outras indicações que incluem casos de eczema e outras irritações da pele, além de também apresentar benefícios contra a esclerose múltipla, hipertensão arterial e envelhecimento precoce.


A quantidade necessária de GLA é difícil de ser determinada. Taxas menores que 0,4 mg indicam deficiência, pois nesse nível sintomas da sua falta podem ser observados. A taxa endógena de formação de GLA em pessoas adultas normais é de 100 a 1.000 mg. Determinadas situações podem provocar um consumo metabólico exagerado de GLA, sendo necessária uma maior quantidade tais como: oxidação excessiva, reação inflamatória e o sexo masculino.
Dentre as fontes naturais de ômega 6 destacam-se o óleo de girassol, peixes de água fria (salmão, atum, sardinha, bacalhau), óleos vegetais, sementes de linhaça, nozes e alguns tipos de vegetais. Estudos indicam que 1 colher de sopa contém 8,5 g de GLA e estima-se que a taxa endógena de formação de GLA varia de 100 a 1000 mg. Então, qual o objetivo do suplemento para usuários que consomem 1 colher de óleo de girassol ao dia?

Na internet há vários sites que informam os benefícios do óleo de prímula, sem citar as referências científicas que comprovam a informação. Segundo o item 3.3 da Resolução ANVISA nº 18, “são permitidas alegações de função ou conteúdo para nutrientes e não nutrientes, podendo ser aceitas aquelas que descrevem o papel fisiológico do nutriente ou não nutriente no crescimento, desenvolvimento e funções normais do organismo, mediante demonstração da eficácia.

Tabela 1. Informações nutricionais do Óleo de Prímula



Portanto, sabemos que o objetivo não é garantir um benefício a saúde do usuário mas sim garantir o comércio pois no veículo eletrônico descrevem os benefícios do produto como um alimento funcional mas no rótulo não trazem nenhuma informação sobre seus benefícios. Conclui-se que estes não querem vender simplesmente um suplemento alimentar mas sim vender saúde uma vez que o consumidor ao acessar o site sente-se sugestionado a adquirir o produto para ter saúde.


Além do mais, a ausência de informações quanto as fontes naturais de obtenção de ômega 6, a necessidade diária recomendada e os riscos associados ao uso abusivo demonstram má-fé dos fabricantes no sentido de orientação e garantia do acesso a informações importantes para o consumidor sobre o produto e a associação com os alimentos.

Um site visitado diz que: “A carência de ácidos graxos essenciais pode acarretar, além da síndrome pré-menstrual, distúrbios como eczema atópico, envelhecimento precoce, esclerose múltipla, hiperatividade infantil e hipertensão arterial.”

Sabendo desta informação, é evidente que os indivíduos que consomem estes produtos não os fazem com o intuito de adquirir um suplemento alimentar mas sim um suplemento em saúde. Entendem que tomar cápsula de óleo de prímula vai ser “bom para a saúde”. Um outro site coloca como objetivo do óleo de prímula a seguinte informação “ indicado para a saúde da mulher”. Mais uma vez o questionamento os fabricantes comercializam um suplemento alimentar ou um alimento- medicamento?

Ao analisar o rótulo destes produtos não encontramos nenhuma informação de que este tenha alguma propriedade funcional, retirando a responsabilidade do fabricante caso o usuário não “adquira saúde” com o produto. Afinal de contas, o produto encontra-se em um site de suplementos alimentares e não de medicamentos!!! Para garantir que os fabricantes isentam-se de qualquer responsabilidade, ainda colocam a advertência abaixo, em destaque;



‘ATENÇÃO: As informações acima tem o caráter meramente informativo e não devem ser utilizadas em detrimento da orientação médica ou de um profissional de saúde. O consumo de suplementos não visa a cura ou a prevenção de doenças. ‘

A conclusão que resta a nós consumidores é que não devemos acreditar em tudo que a mídia nos mostra mas sim buscar evidências científicas que comprovem o real benefício de um produto.

Referências bibliográficas:



BAGCHI, D; PREUSS, H. G.; KEHRER, J. A. Nutraceutical and functional food industries: aspects on safety and regulatory requeriments. Toxicology Letters. v.150, p. 1-2, 2004.

BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução n. 18, de 30 de abril de 1999. Aprova o Regulamento Técnico que Estabelece as Diretrizes Básicas para Análise e Comprovação de Propriedades Funcionais e ou de Saúde Alegadas em Rotulagem de Alimentos. Brasília, 1999c.

KRUGER, C. L.; MANN, S. W. Safety evaluation of funcional ingredients. Food and Chemical Toxicology. v. 41, p.793-805, 2003.

http://www.saudecominteligencia.com.br/primula.htm.%20(Acessado%20em%2009/11/11)

3 comentários:

  1. O óleo da semente de prímula apresenta uma grande quantidade de ácidos graxos essenciais, em especial o ácido gamolênico responsável pela atividade terapêutica. O ácido gamolênico está envolvido na biossíntese de prostaglandinas, com redução da inflamação crônica.
    Há duas famílias de ácidos graxos essenciais (AGE), família ômega-3 (w3) e ômega-6 (w6), são considerados essenciais quando não podem ser sintetizados pelo organismo, mas são extremamente necessários ao seu perfeito funcionamento e devem ser obtidos na dieta. Alterações nas proporções destes ácidos na dieta podem levar a alterações profundas nos processos biológicos, como a inflamação e a coagulação do sangue. Estudos em roedores comprovam a ação anti-inflamatória e anticancerígena destes compostos quando suplementados na dieta dos animais. Além desses efeitos há ainda os efeitos destes ácidos na pele após ingestão na dieta, ou como suplementação; alguns trabalhos têm apontado que os AGE podem ser utilizados topicamente tanto na cicatrização de feridas como na profilaxia de úlceras de pressão, formando uma película protetora sobre a pele.
    A falta de informações adequadas sobre as propriedades, seu consumo concomitante com os medicamentos tradicionais (alopáticos) sem aviso ao médico e, finalmente, a perda do conhecimento sobre os efeitos medicinais e adversos, são fatores preocupantes da automedicação.
    Pacientes que utilizam medicamentos fitoterápicos acreditam que, por esses serem substâncias naturais, não representam risco à saúde humana. Incorrem em automedicação, substituem os medicamentos alopáticos por plantas, ou ainda fazem o uso concomitante de ambos. Em consequência disso, o crescente aumento da automedicação muitas das vezes se dá em busca de promessas ou “curas” (não fundamentada na pesquisa científica), o que compromete o verdadeiro tratamento do produto farmacêutico e seus benefícios à saúde. Um belo exemplo é o caso de que pacientes epiléticos tratados com fenotiazínicos devem evitar o consumo de óleo de prímula, que pode provocar um quadro de epilepsia do lóbulo temporal. A automedicação é particularmente preocupante quando é realizada em conjunto com outros medicamentos, podendo levar a efeitos sinérgicos e interações não esperadas. Neste caso torna-se importante enfatizar a importância de procurar um médico, para que ele ,sob suas capacidades, faça uma anamnese completa e possa planejar um tratamento eficaz para o que se deseja tratar/curar. Leia a bula. Informe-se.

    Aluna: Nathany Prado.

    Referências:
    NABAS, F., CONTESINI, F. J., MENIN, S. E. A. Efeito antiedematogênico de óleos contendo ácidos graxos ômega-3 e 6 em camundongos. Universidade São Francisco, São Paulo. 2009. Indexado na Lilacs virtual sob nº LLXP: S0034-72642009001700005I
    ROSA, C., MACHADO, C. A. Plantas medicinais utilizadas no tratamento de doenças reumáticas: revisão. PUCRS. Rev. Bras. Farm., 88(1): 26-32, 2007.
    VEIGA, V. F., PINTO, A. C. Plantas medicinais: cura segura? Quim. Nova, Vol.28, No 3, 519-528, 2005.

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  2. O óleo de prímula é conhecido por ser produto de origem vegetal rico em ácido gama linolênico (GLA), o qual é um ácido graxo poliinsaturado e essencial a dieta humana. Essa substância, fisiologicamente, atua como precursor na via de síntese do ácido araquidônico, um importante agente inflamatório.
    A cascata de síntese desse ácido tem início com a ação das fosfolipases A2 ou C, as quais clivam os fosfolipídeos da membrana dando origem a ácidos graxos, que sofrem dessaturações e elongações enzimáticas sucessivas. Esse processo culmina na formação de, principalmente, PGE2, uma prostaglandina pró- inflamatória.
    O GLA entra na via como precursor direto do ácido dihomo-gamma-linolênico (DGLA), o qual da origem a PGE1 em uma via alternativa a síntese de ácido araquidônico. O que diferem as duas prostaglandinas citadas é a função na modulação inflamatória que as duas exercem, sendo a primeira pró- inflamatória e a segunda antiinflamatória.
    A ingestão do óleo proveniente das sementes de prímula provoca um excesso de GLA, que acaba por acumular DGLA na via. Com isso, é observado um deslocamento para a via alternativa de produção de PGE1. O resultado desse processo é uma ação antiinflamatória no organismo estudado.
    Estudo recentes demonstram a eficácia desse óleo no tratamento de doenças reumáticas, as quais são provenientes de processos inflamatórios crônicos e doloridos. Nos EUA o GLA só deve ser utilizado com prescrição médica e a planta está incluída no Martindale 30ª edição. Esses achados literário podem ser considerados fortes evidências de uma importante ação terapêutica decorrente da ingestão desse óleo. Segundo a ANVISA, suplementos alimentares podem ser enquadrados tanto como medicamentos, quanto como alimentos, podendo sim serem usados para promoção de saúde. Dessa forma, o produto sitado no artigo não estaria infringindo as regulamentações da ANVISA quando é registrado como um suplemento alimentar.

    Aluna: Carolina Santos Barreto

    ROSA, C., MACHADO, C. A. Plantas medicinais utilizadas no tratamento de doenças reumáticas. Rev. Bras. Farm., 88(1): 26-32, 2007
    SUPLEMENTOS ALIMENTARES. 29/09/2016 22:36
    ANDRADE, M. M. P., CARMO, M. G. T. Ácidos graxos n-3: um link entre eicosanóides, infl amação e imunidade. mn- metabólica -julho/setembro 2006;8(3)

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  3. pesquisa rápida no google acadêmico mostrou diversos estudos tentando provar o efeito benéfico do óleo de prímula. Achei uma meta análise cuja conclusão é que baseado nos poucos estudos, o uso do óleo de prímula causa pouco ou nenhum impeacto na redução dos sintomas de tpm. achei também um estudo duplo cego com 123 pacientes onde não houve melhora de eczema após o uso de óleode prímula. Não sou médica, mas para mim, parece se tratar de um grande embuste para gerar comércio. Recentemente, recebi uma receita para esse produto, mas decidi não comprá-lo devido a falta de comprovação científica de seu efeito.

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