Apresentação

Espaço para a apresentação e análise de estudos e pesquisas de alunos da UFRJ, resultantes da adoção do Método de Educação Tutorial, com o objetivo de difundir informações e orientações sobre Química, Toxicologia e Tecnologia de Alimentos.

O Blog também é parte das atividades do LabConsS - Laboratório de Vida Urbana, Consumo & Saúde, criado e operado pelo Grupo PET-SESu/Farmácia & Saúde Pública da UFRJ.Nesse contexto, quando se fala em Química e Tecnologia de Alimentos, se privilegia um olhar "Farmacêutico", um olhar "Sanitário", um olhar socialmente orientado e oriundo do universo do "Consumerismo e Saúde", em vez de apenas um reducionista Olhar Tecnológico.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Linhaça contra câncer de mama e sintomas da menopausa: Cápsulas ou Sementes?


A fama dos benefícios da Linhaça para a saúde já é bastante divulgada. Além das propriedades mais conhecidas, a presença de determinadas substâncias na linhaça tem sido associada à prevenção e controle do câncer de mama e dos sintomas comuns da menopausa.
Mas, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Haveria diferença entre a ingestão de cápsulas de óleo de linhaça e das sementes em si? Tudo é linhaça, mas é igual?
Os benefícios anunciados seriam obtidos independentemente da fonte de linhaça? A praticidade de obtenção das substâncias desejadas torna as pílulas realmente mais vantajosas? E a quantidade? Quanto mais, melhor?


Introdução:

A linhaça (Linum usitastissimum L.) é uma planta versátil e tem sido apontada como um super alimento nos últimos anos. Sua reputação para tratamento de doenças, nutrição e utilidades, data da época do Egito antigo onde, devido a sua natureza fibrosa, apresentava importantes usos como na produção de roupa, cordas e redes além de ser usada como remédio (ex: laxante natural). Ainda hoje, as suas sementes e óleo são usados na culinária e panificação, também como suplementos dietéticos e mesmo como medicamentos.

A maioria de nós já ouviu que essa pequena semente “é boa” para diversos usos como medicamento natural, tais como: redução dos níveis de colesterol, doença cardíaca, diabetes, câncer, menopausa, entre outros. Mais especificamente, os efeitos da linhaça têm sido bastante estudados para quadros clínicos relacionados com questões hormonais em mulheres como cólicas menstruais, menopausa, e até mesmo os cânceres hormônio-induzidos como o de mama e ovário. A eficácia da ingestão da semente ou do óleo de linhaça para estas indicações ainda está em discussão na comunidade científica.

Diante de tantas possibilidades promissoras, multiplicam-se as opções e os apelos milagrosos e, muitas vezes irresponsáveis, para o consumo da linhaça. Em supermercados ou em qualquer loja de produtos naturais, é possível encontrar diversas marcas de cápsulas de óleo de linhaça com o ‘claim’ de efeitos benéficos e sendo incentivada para uso inclusive com objetivos cosméticos. Mas nem todas as propriedades funcionais atribuídas à semente de linhaça podem ser garantidas para estas cápsulas. A confusão e o engano podem estar mais próximos do consumidor do que se imagina.




Fundamentos Bromatológicos:
 
- Revisão Literária: 

No Brasil, o câncer de mama é a terceira causa de mortalidade em mulheres. Estudos epidemiológicos onde foram comparadas mulheres orientais e ocidentais mostram um comportamento geograficamente diferenciado na ocorrência do câncer de mama, e sugerem dentre os fatores de risco, a dieta consumida. Além disso, grande parte das mulheres experimentam sintomas desagradáveis durante a menopausa, como os calores, insônia e depressão. A terapia pode incluir reposição hormonal, mudança de estilo de vida, ou mesmo a adição de linhaça à dieta.

A linhaça é rica em fibras e mucilagens. Também contém altos níveis de ácido alfa linolênico, ou ALA, um dos mais importantes ácidos graxos essenciais ômega-3. As sementes também contém lignanas, um tipo similar ao estrogênio ou fitoestrógeno, que pode mimetizar o efeito do estrogênio natural no corpo humano.

Os fitoestrógenos, por definição, são compostos que ocorrem naturalmente em plantas, frutas e grãos. Estes após serem consumidos são convertidos por enzimas metabólicas no intestino, a composto fenol heterocíclico, por serem similares ao esteróide estrogênico, eles competem pelo receptor de estrogênio. A estrutura do fitoestrógeno e seus metabólitos variam grandemente, e assemelham-se com o estrogênio humano 17β-estradiol. É descrito que os compostos difenólicos afetam o metabolismo, produção e o crescimento de células cancerígenas por diferentes mecanismos, agindo como agentes protetores.

Alguns estudos mostram a existência de uma relação entre a quantidade de lignana excretada pela urina e o risco de câncer de mama onde a elevada ingestão, pode estar relacionada com a redução do risco desta doença. O provável mecanismo existente é a competição pelo receptor do estrogênio, onde tem sido demonstrado que a suplementação com lignana altera no soro globulina carreadora de hormônios sexuais (SHBG), níveis de estradiol e outros hormônios esteróides, inibição de enzimas e fatores de crescimento, inibição de angiogênese, no entanto ainda se faz necessário investigar evidências da relação entre a lignana dietética e o câncer de mama. Além disso, esses compostos exercem atividade antioxidante que também ajudariam a prevenir o câncer.

Atualmente, inúmeras publicações têm levantado o papel da fibra na redução do risco de câncer de mama, sugerindo que um aumento do consumo de fibras pode reduzir o risco deste tipo de câncer. Muitos possíveis mecanismos de ação têm sido sugeridos, sendo o mais provável o que envolve a redução de estrogênios bioativos no sangue. É fato que dietas ricas em fibras estão associadas com a alteração da flora colônica, atuando na regulação da recirculação enterohepática de estrogênios, de tal forma que a quantidade de estrogênio excretado é aumentada. Além disso, as fibras estão associadas com melhora no funcionamento intestinal e redução no risco de câncer de cólon.

O efeito do CLA no câncer de mama é decorrente de sua ação inibidora no crescimento de células mamárias denominadas receptoras de estrogênio positivas, ou seja, relacionada ao sistema de resposta estrogênica. Os possíveis mecanismos responsáveis pela inibição da carcinogênese pelo ácido alfa linolênico conjugado (CLA) incluem: a redução da proliferação celular, alteração nos componentes do ciclo celular, e mediação na inibição da apoptose (morte celular programada). Além disso, o CLA modula marcadores do sistema imune e a formação de eicosanóides, atuando no metabolismo lipídico e na expressão genética.

- Discussão:

Todos os benefícios aclamados para a linhaça devem ser vistos com cautela. No caso das fibras, a comprovação da hipótese formulada é difícil, pois o metabolismo da microflora intestinal varia de pessoas para pessoa. A variabilidade individual tem um grande impacto no metabolismo e excreção dos fitoestrógenos. Ou seja, não se tem bem definido e determinado os efeitos de todas essas substâncias químicas.

Apesar de se apresentarem como opções mais práticas, as cápsulas de óleo de linhaça teriam as mesmas indicações que a semente ou a linhaça moída?

Não confunda a semente de linhaça (inteira ou moída) com o óleo de linhaça! São duas coisas bem diferentes... 

As cápsulas vendidas contém óleo de linhaça que é rico em ácido alfa linolênico (ômega-3) que exerce papel importante no controle do colesterol e também ajuda a reduzir o risco de inflamações. NO entanto, devido a sua natureza insaturada, pode se oxidar rapidamente quando exposto ao calor, luz e oxigênio.

Diferentemente do óleo, a semente da linhaça, seja inteira ou moída, contém a casca externa e esta é que é rica em fibras solúveis e insolúveis assim como em lignanas. Por isso, a semente moída pode ser usada para tratar constipação, pois as fibras e mucilagens ajudam na formação do bolo fecal e na movimentação pelo trato digestivo. É importante ressaltar que o consumo dessas fibras deve ser seguido de ingestão de água para que não haja bloqueio intestinal. As lignanas que mimetizam a ação dos estrogênios naturais também estão ricamente na casca e são elas que são associadas aos efeitos benéficos para menopausa e redução no risco de câncer de mama e ovário.

Enquanto a semente de linhaça ou linhaça moída é muito rica em fibras, cápsula que contém somente o óleo não possui as propriedades laxativas. Além disso, as cápsulas de óleo não têm lignanas, ou as tem em baixas concentrações, diferentemente do que dizem as embalagens desses produtos que informam que são “cápsulas ricas em lignanas”. Para o tratamento e prevenção dos sintomas da menopausa e câncer de mama ou para os efeitos laxativos, a semente inteira ou moída é a melhor opção. Alguns estudos indicam que o óleo também teria efeitos nos sintomas da menopausa a e câncer de mama, mas seriam por outros mecanismos ainda não esclarecidos.

Dessa forma, é importante verificar que o uso da linhaça precisa ser feito de forma consciente de acordo com o que se deseja com este uso. Nem sempre então, todos os efeitos aclamados nas embalagens das cápsulas podem ser assegurados pelo simples fato de que nestas preparações não estão todas as substâncias desejadas. Todo cuidado é importante antes de adquirir esses produtos!  

Quanto de linhaça? Quanto mais, melhor?

Não há recomendações bem estabelecidas para a quantidade de linhaça necessária a ser consumida para se obter os efeitos benéficos à saúde na prevenção de câncer e nos sintomas da menopausa. A quantidade adequada para atuar nesses quadros é definida baseando-se em uma série de características que devem ser avaliadas por pelo médico. A maioria dos estudos consideraram doses entre 10 e 50g e indica que uma dose de 45g tem efeitos laxativos.

Legislação:

A linhaça é considerada um alimento funcional no Brasil e a variedade mais comum é a semente de cor marrom escura brilhante. A semente de linhaça é usada como matéria-prima para a produção de óleo e farelo. No Brasil, a espécie Linum usitatissimum está presente entre as plantas medicinais e da lista oficial da 1ª. Edição da Farmacopéia Brasileira.

Os alimentos funcionais devem apresentar propriedades benéficas além das nutricionais básicas, sendo apresentados na forma de alimentos comuns. São consumidos em dietas convencionais, mas demonstram capacidade de regular funções corporais de forma a auxiliar na proteção contra doenças. Deve haver uma diferenciação entre produtos que são vendidos e consumidos como alimentos (funcionais) e aqueles que um componente, em particular, foi isolado e é vendido na forma de barras, cápsulas, pós, entre outros (nutracêuticos). A separação desses produtos é necessária quando se estabelece limites de consumo. Os ingredientes funcionais como um grupo de compostos que apresentam benefícios à saúde, tais como os ácidos graxos poliinsaturados presentes em óleos vegetais.

A FDA classificou os alimentos funcionais em cinco categorias: alimento, suplementos alimentares, alimento para usos dietéticos especiais, alimento-medicamento ou droga. Nessa perspectiva, o alimento funcional deve apresentar primeiramente as funções nutricional e sensorial, sendo a funcionalidade a função terciária do alimento. Os suplementos alimentares são produtos alimentícios feitos com o propósito de serem ingeridos na forma de tabletes, farinha, géis, cápsulas de gel ou gotas líquidas. No Brasil, o Ministério da Saúde, através da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), regulamentou os Alimentos Funcionais através das seguintes resoluções: ANVISA/MS 16/99; ANVISA/MS 17/99; ANVISA/MS 19/99.

Dessa maneira, as cápsulas se enquadram como suplementos e seguem legislação específica e devem também seguir as diretrizes de rotulagem e se enquadrar em suas alegações de propriedades funcionais. Já a semente de linhaça é um alimento funcional e não pode ser tóxica na quantidade usual de consumo normal na dieta alimentar.  

Conclusão:

Os benefícios oferecidos podem ser muitos, no entanto é importante o consumo consciente e a crítica racional por parte dos consumidores com relação às informações divulgadas pelos produtores de suplementos alimentares como as cápsulas de óleo de linhaça. Importante também ter sempre em mente que os estudos científicos ainda não chegaram a resultados conclusivos quanto aos benefícios. Mas os resultados são promissores quanto ao emprego para tratamento de câncer e sintomas relacionados às questões hormonais na menopausa.

Nunca é demais alertar: olhos abertos para detectar irregularidades em produtos comercializados como “naturais”. Verificar sempre a rotulagem quanto às informações de composição, data de fabricação, conservação adequada e alegações de saúde. Os benefícios são atraentes, mas os riscos e os enganos podem estar bem próximos.
 
Referências:

Padilha P C; Pinheiro R L. O Papel dos Alimentos Funcionais na Prevenção e Controle do Câncer de Mama. Revista Brasileira de Cancerologia 2004; 50(3): 251-260.

Cordeiro R, Fernandes P L, Barbosa L A. Semente de linhaça e o efeito de seus compostos sobre as células mamárias. Rev. Bras. Farmacogn. 19(3): Jul./Set. 2009.

Moraes F P, Colla L M. Alimentos funcionais e nutracêuticos: definições, Legislação e benefícios à saúde. Revista Eletrônica de Farmácia Vol 3 (2), 99-112, 2006.



<http://www.livestrong.com>. Acessado em: 17/12/2011.


3 comentários:

  1. Conforme o trabalho acima, vemos que a linhaça tem sido por muito tempo um alimento super-recomendado por especialistas. Rica em mucilagens, ômega-3 e fitoesteróis, como lignanas, ela é considerada um excelente auxílio na reposição hormonal em mulheres na menopausa. Além disso, tem sido indicada na prevenção de câncer de mama devido às lignanas que atuam mimetizam a ação do estrógeno. Esse importante fitoesterol não possui ação negativa no tecido mamário, neutralizando a atuação do estrógeno sobre o tecido e com isso prevenindo a ocorrência do tumor. Contudo, apesar dos efeitos benéficos, é importante salientar que o consumo excessivo, o condicionamento inadequado e a forma de preparo da linhaça podem ser prejudiciais à saúde dos consumidores.
    Algumas alterações por rancificação da farinha ou do óleo de linhaça podem provocar irritação cutânea, sendo indicada sua moagem rápida e condicionamento adequado, principalmente quando se trata da farinha. O ideal é preparar a linhaça momentos antes de consumi-la, mas, quando não for possível, deve-se guardá-la sob refrigeração, em pote escuro e hermeticamente fechado. A incidência da luz e calor sobre a linhaça pode levar à perda de vitaminas e à oxidação da gordura.
    A desintegração da semente de linhaça facilita a liberação de substâncias tóxicas, como heterosídeos cianogênicos e lineína. A primeira substância se encontra em pequenas quantidades na semente (25mg por cada 100g) e está relacionada a uma toxicidade respiratória, podendo favorecer o surgimento da doença pulmonar obstrutiva crônica. O risco de intoxicação pelos heterosídeos cianogênicos se encontra apenas no consumo da farinha da semente, já que a cutícula presente na semente inteira previne o desprendimento desses heterosídeos. Da mesma forma, a trituração da semente pode levar ao desprendimento da lineína, uma proteína que pode ser tóxica para o fígado quando consumida por via interna. Por isso, não é recomendado o consumo superior a 100g da semente sob a forma triturada.
    Além de todos os cuidados já citados, deve-se ressaltar que o consumo do óleo da semente é contraindicado a mulheres nos dois trimestres finais da gestação, por induzir quatro vezes mais o parto prematuro. Dessa forma, devemos sempre ter o pensamento de que até mesmo as substâncias de origem natural podem possuir contraindicações e efeitos adversos.
    Referências Bibliográficas
    1 - Alimentação: A diferença está no preparo. Folha de S. Paulo, Edição: F.C., 04.11.2008.
    Acesso em 07/04/12 ás 11:00h
    2 - Morales C.: Remedios contra el estreñimiento. Cuerpomente. Nº 23, pp. 46. 1994.
    3 - Arteche García A. y col.: Fitoterapia: Vademecum de Prescripción. Cita S. A. 2ª Edic. Barcelona. 1994.

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  2. Muito interessante esse trabalho sobre a linhaça, que é um produto natural abundante no Brasil e com diversas abordagens terapêuticas. Assim como mencionado no trabalho os componentes deste produto (sendo as lignanas o majoritário) apresentam efeito fracamente estrogênico e antiestrogênico, mostrando exercer influência na diminuição do risco de câncer de mama, o que é uma ótima novidade por ser um método ainda em estudo sobre um possível tratamento para o câncer, já que os medicamentos atualmente utilizados são extremamente danosos aos pacientes por apresentarem significativos efeitos adversos. Outra nova abordagem terapêutica da linhaça é no tratamento da hipercolesterolemia, uma vez que o produto é capaz de diminuir o colesterol total e o LDL e aumentar o colesterol HDL.
    Outro ponto importante do estudo é o esclarecimento quanto a diferença entre as propriedades da farinha de linhaça e das cápsulas, mostrando diferentes ações e usos. É importante que o consumidor saiba esses aspectos e escolha racionalmente o produto não sendo influenciado somente pela propaganda de venda desses produtos.

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  3. A linhaça é apresentada de diversas formas. Na forma de sementes em si, de óleo e de farinha e é importante para o consumo entender a diferença entre eles.
    A semente de linhaça tem a função de proteger e preservar todos os nutrientes do interior da semente. No entanto, ela mantém essas substâncias tão bem guardadas que fica difícil até para o nosso organismo quebrar a barreira que leva á parte mais nobre do alimento. É necessário uma boa mastigação para ter acesso aos componentes internos da semente.
    Amarelado, o óleo de linhaça tem um gosto mais para o amargo. A grande vantagem dele está na quantidade de gorduras benéficas, cuja concentração é significativamente maior do que na semente e na farinha. Já o ponto negativo do óleo é a ausência de fibras.
    Existem três tipos de farinha de linhaça disponíveis: a marrom integral, a dourada e a marrom desengordurada. Consumir diariamente até 30 gramas (ou quatro colheres de sopa) de qualquer uma delas pode trazer benefícios para a saúde.

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