Apresentação

Espaço para a apresentação e análise de estudos e pesquisas de alunos da UFRJ, resultantes da adoção do Método de Educação Tutorial, com o objetivo de difundir informações e orientações sobre Química, Toxicologia e Tecnologia de Alimentos.

O Blog também é parte das atividades do LabConsS - Laboratório de Vida Urbana, Consumo & Saúde, criado e operado pelo Grupo PET-SESu/Farmácia & Saúde Pública da UFRJ.Nesse contexto, quando se fala em Química e Tecnologia de Alimentos, se privilegia um olhar "Farmacêutico", um olhar "Sanitário", um olhar socialmente orientado e oriundo do universo do "Consumerismo e Saúde", em vez de apenas um reducionista Olhar Tecnológico.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Chá de Maracujá: Sedativo Natural?


Um dos maiores males do século XXI é o estresse, que pode gerar problemas como a depressão, a ansiedade e a insônia. Este último é decorrente de um estresse cerebral, que pode afetar a habilidade de atenção e, em casos mais extremos, desencadear um processo de depressão.
Como possível solução para este problema, surge o chá de maracujá, que é comercializado em diferentes marcas, como por exemplo, o Chá Mais®, sendo utilizado como um grande aliado da indução do sono e da redução da ansiedade. Porém, será que ele de fato funciona ou é apenas um mito proveniente da medicina popular? Qual a quantidade mínima regulamentada pela ANVISA para se atingir o efeito ansiolítico esperado? Será que os atrativos sachês do chá de maracujá Chá Mais® possuem esta quantidade mínima?

Entre as plantas utilizadas como medicinais, destacam-se as espécies da Família Passifloraceae, sendo a sua utilização tão antiga quanto a própria civilização. A literatura etnofarmacológica destaca o uso do chá de maracujá na medicina popular como um grande aliado contra a ansiedade e a insônia, sendo a Passiflora alata uma droga oficial da farmacopéia brasileira reconhecida por combater tais efeitos.
 Pela praticidade, e com o objetivo de alcançar esses benefícios, muitas pessoas fazem uso dos sachês industrializados largamente vendidos nos supermercados, que apresentam propagandas que acentuam seus poderes ansiolítico e indutor do sono com mensagens como: “Calmante e diurético. Pode combater insônia e os efeitos da menopausa. Ajuda a prevenir tosse, asma, palpitações e dores de cabeça” ou ainda ”O Chá de Maracujá é usado no controle de ansiedade, insônia, pressão alta e irritabilidade”.
         Apesar de serem muitas as espécies com uso tradicional, a maioria dos estudos mostra que a possível atividade ansiolítica de indivíduos é alcançada pelo uso da Passiflora alata. De fato, o chá de maracujá é um excelente ansiolítico natural uma vez que as folhas da espécie Passiflora alata apresentam comprovação científica quanto às suas propriedades medicinais. A composição química dos extratos da folha da Passiflora alata tem sido extensamente estudada e tem revelado a presença de alcalóides polifenóis como um dos principais responsáveis pelos seus princípios ativos e saponinas.
Uma classe de compostos naturais que tem demonstrado um grande potencial na busca de novas moléculas com atividades ansiolíticas é a dos flavonoides, um grupo metabólitos secundários amplamente distribuídos no reino vegetal (MARDER E PALADINI, 2002). Em ensaios foram comprovados que uma porção rica em flavonóides era capaz de inibir a excitação em animais induzida pela cocaína. O primeiro monoflavonóide ligante específico de benzodiazepínico e com atividade in vivo foi a crisina, e por isso Zanoli et al (2000) atribuíram o efeito biológico contra ansiedade e o efeito sedativo principalmente a este flavonóide que atua nos receptores GABA-A, mas, com efeito, dez vezes menor que o diazepam sem apresentar efeito miorrelaxante.
      Porém, podemos presumir que para um indivíduo atingir o efeito ansiolítico esperado, a quantidade ingerida do chá de maracujá Chá Mais®, que é constituído pela espécie Passiflora alata, deve ser superior àquela presente em um único sachê industrializado. Assim, objetiva-se fazer uma análise da quantidade mínima requerida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e do modo de preparo sugerido pela empresa Chá Mais® visando os efeitos prometidos.
         A RDC Nº 10, DE 9 DE MARÇO DE 2010, visa regulamentar as drogas vegetais garantindo a promoção da segurança, eficácia e qualidade do uso das mesmas, certificando a parte utilizada, a forma de utilização, posologia e modo de usar, via, uso, alegações, contraindicação e efeito adverso sendo estes presentes no Anexo I disponibilizados no site da ANVISA. Com base nesta resolução, temos que para combater quadros leves de ansiedade e insônia e atuar como calmante suave deve ser feita uma infusão com 3 g da folha da espécie Passiflora alata com 150 ml de água. Em contrapartida, a instrução do modo de preparo do chá de maracujá Chá Mais®, que contém folhas secas disponibilizadas em sachês, sugere que um sachê contendo 1,5 g seja submerso em 200 ml de água fervendo.  Assim, para se atingir o efeito ansiolítico proposto a infusão deveria ser realizada no mínimo com dois sachês, somando 3 g, em 150 ml de água fervente. Isso demonstra que um único sachê de chá de maracujá não promove o efeito farmacológico descrito nas propagandas, e que o seu modo de uso está inconsistente diante da proposta apresentada pelo produto.
Portanto, verificamos nas linhas acima que há pontos que precisam ser melhorados no uso dos chás. Mostrou-se notório que as Indústrias produtoras prometem uma série de benefícios para os usuários de seus produtos. Porém, o cumprimento dessas promessas não é tão certo assim. A fim de que se possa obter o efeito desejado de forma eficiente, seria primordial um correto embasamento na legislação vigente, orientando os usuários quanto ao seu modo de uso real. Somente assim os consumidores poderiam comprar o produto e de fato confiar naquilo que as embalagens e propagandas preconizam tão efusivamente.

BARBOSA, P. R. Estudo da Ação Psicofarmacológica de Extratos de Passiflora alata dryander e Passiflora edulis sims. Universidade do Extremo Sul Catarinense, 2006.
PEREIRA, C.A.; VILEGAS, J.H.Y. Constituintes químicos e farmacológicos do gênero Passiflora com ênfase a P. alata, P. edulis e P. incarnata: Revisão da literatura. Revista Brasileira de Plantas Medicinais. 3.1-12. 2004.
       PROVENSI, G. Investigação da Atividade Ansiolítica de Passiflora alata cutiis (Passefloraceae). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2007.
           RDC Nº10, de 9 de Março de 2010  da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

3 comentários:

  1. Apesar de todos os seus benefícios, estudos fitoquímicos tem mostrado a presença de flavonóides, alcalóides, saponinas, triterpenos e esteróides na Passiflora alata (maracujá). A presença dessas substâncias na planta explicam os efeitos sedativos, tranqüilizantes e ansiolíticos relatados para o uso terapêutico. Relatam-se também efeitos adversos decorrentes do uso de plantas do gênero Passiflora, como náuseas, vômito, vertigem, alterações eletrocardiográficas, catalepsia, depressão, toxicidade hepatobiliar e pancreática.

    Considerando outro estudo realizado, em que apresenta as saponinas como principal metabólito, (saponinas são metabólitos com atividade biológica conhecida, porém algumas são tóxicas)é provável que a toxicidade apresentada pela P. passiflora seja devido as saponinas presentes em sua composição.

    Após essas análises, pode-se concluir que é necessário cuidado na ingestão dessa planta. Uma vez que eventos adversos foram relatados e toxicidade foi comprovada. Porém mais estudos devem ser realizados para certificar essas informações.

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  2. Carolina Lindenberg11 de setembro de 2012 15:01

    Podemos observar também que a Passiflora alata é o princípio ativo de alguns medicamentos, como a Maracugina® e a Passiflora composta, classificados como fitoterápicos pela Resolução nº 1336, de 24 de agosto de 2001 da ANVISA. É possível no site da própria ANVISA, encontrar informações sobre esses medicamentos, explicitando fatores importantes como contraindicações, efeitos adversos e casos de superdosagem.
    Partindo deste ponto, analisamos o caso do chá de maracujá. Mesmo ele sendo regulado pela RDC nº 10, de 9 de março de 2010 de drogas vegetais - como cita o texto, nota-se uma preocupação menor, até por parte do fabricante, com o bem estar do paciente. Não há, visivelmente, alertas de que o chá deve ser ingerido com cautela e que o seu uso pode interagir com bebidas alcoólicas ou outros medicamentos – informações que encontramos com clareza na bula dos medicamentos a base de P. alata.
    Por fim, as próprias instruções de uso indicam que a quantidade ingerida de chá é insuficiente para causar o efeito sedativo desejado, como citado no texto. Deve-se então questionar toda essa propaganda feita em cima do chá de maracujá, pois ela só fixa em promover uma ação calmante, sem mostrar seu modo de preparo adequado e suas possíveis consequências.

    Fontes:

    http://www.anvisa.gov.br/legis/resol/1336_01re.htm

    http://www4.anvisa.gov.br/base/visadoc/BM/BM%5B34164-1-0%5D.PDF

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  3. Pesquisa um tanto conveniente, visto que a grande maioria dessas pesquisas "se deitam " com as indústrias farmacêuticas. Assim, só disponibilizam ao povo as informaçoes convenientes às indústrias das drogas.

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