Apresentação

Espaço para a apresentação e análise de estudos e pesquisas de alunos da UFRJ, resultantes da adoção do Método de Educação Tutorial, com o objetivo de difundir informações e orientações sobre Química, Toxicologia e Tecnologia de Alimentos.

O Blog também é parte das atividades do LabConsS - Laboratório de Vida Urbana, Consumo & Saúde, criado e operado pelo Grupo PET-SESu/Farmácia & Saúde Pública da UFRJ.Nesse contexto, quando se fala em Química e Tecnologia de Alimentos, se privilegia um olhar "Farmacêutico", um olhar "Sanitário", um olhar socialmente orientado e oriundo do universo do "Consumerismo e Saúde", em vez de apenas um reducionista Olhar Tecnológico.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Análise da propaganda do Super Cálcio D: ele auxilia mesmo em tudo que promete?





Com um nome imponente desses e uma propaganda que promete mundos e fundos, há de se imaginar que esse suplemento realmente é SUPER potente e eficaz contra todos os tipos de doença que podem ter relação com o cálcio.


Alívio dos sintomas da menopausa e das dores nas articulações, prevenção da osteoporose, ajuda no combate as doenças ósseas e artrite e artrose.  Essas são as promessas contidas na propaganda do Super Cálcio D.
         Além disso, a propaganda é feita com a participação de uma “celebridade” que insinua fazer uso do suplemento de cálcio e diz fornecer mais saúde; mais um motivo para o leigo não perder tempo em adquiri-lo!

         Esse tipo de propaganda é permitida? Por que não se alimentar de forma correta e fazer exercícios físicos para melhorar a qualidade de vida e assim prevenir ou mesmo tratar esse tipo de doença sem ter que gastar dinheiro com esse tipo de suplemento? Quantos comprimidos ingerir para obtenção dos efeitos benéficos?  Esse suplemento possui registro no Ministério da Saúde e  é liberado pela ANVISA? Para mais informações, 



    A osteoporose constitui uma doença pela redução de massa óssea com distorção de sua microarquitetura, isso provoca fragilidade óssea e pode culminar com fraturas. Suas causas mais comuns são: deficiência na pós-menopausa de estrógeno e prejuízo da homeostasia óssea relacionada à idade (por essas causas é denominada osteoporose primária). Mas a osteoporose também pode ocorrer secundariamente a condições como artrite reumatóide. A patogênese da osteoporose na artrite reumatóide é multifatorial e fatores predisponentes para o seu aparecimento incluem desde a mobilidade reduzida que estes pacientes comumente apresentam, ao tempo de doença, o uso de corticosteróides e a deficiência de estrogênio na mulher ou testosterona no homem, relacionada com a faixa etária usualmente acometida pela doença. Outros fatores relacionados com a maior incidência de osteoporose nos pacientes com artrite reumatóide incluem a atividade inflamatória persistente da patologia, causa uma maior reabsorção óssea secundariamente aos efeitos das citocinas pró-inflamatórias IL-1, IL-6 e TNF-α, presentes em maior quantidade nestes pacientes.      


As necessidades diárias de cálcio variam de acordo com a faixa etária: no adolescente é cerca de 1200 mg/dia; no adulto, 800 mg/ dia; na perimenopausa, 1000mg/dia e na pós-menopausa, 1500 mg/dia. Nos primeiros 20-25 anos de vida, a densidade mineral óssea (DMO) aumenta com a idade, até que o pico de massa óssea é alcançado. Segundo alguns estudos, pelo menos metade da massa óssea de um adulto é ganha durante a adolescência. A massa óssea então permanece relativamente constante até que, nas mulheres, a menopausa é alcançada. Depois da menopausa, há uma fase de rápida perda óssea por 5 a 10 anos, e então uma fase um pouco mais lenta induzida pela idade.    A DMO é altamente relacionada com a resistência óssea e prediz o risco de futuras fraturas. A nutrição é um dos fatores mais importantes no desenvolvimento e manutenção da massa óssea e na prevenção e tratamento da osteoporose e podem ser supridas pela ingestão de leite e seus derivados, feijão branco, espinafre, mostarda, agrião, brócolis, couve-manteiga, soja, nozes, peixe (salmão, sardinha). Porém, é importante estar atento a algumas combinações infelizes como: 


 • Café com leite_ a ciência comprovou que a cafeína atrapalha o processo de absorção do cálcio. 
• Milk-shake e batata-frita_ é bom evitar pois durante a ingestão a gordura da batata se transforma numa pasta que atrai o cálcio e impede que ele seja absorvido pelo organismo.
• Salada de rúcula e mussarela de búfala_ o cálcio presente na mussarela e o ferro abundante na rúcula competem entre si. O organismo dará prioridade de absorção ao mineral que estiver em falta no momento.     


Caso o suprimento não seja assegurado com a dieta, este também pode ser reposto com a ingesta de suplementos de cálcio (como por exemplo o SUPER CÁLCIO D). Um consumo adequado de cálcio e vitamina D, a partir dos alimentos e/ou suplementos, é necessário para assegurar o pico máximo de DMO no final da adolescência, bem como para diminuir a taxa de perda óssea numa idade mais avançada. Dois estudos epidemiológicos bastante citados na literatura, um realizado na Croácia e o outro na China, (MATKOVIC et al., 1979; HU et al., 1993) fundamentam essa informação.      


O suplemento de cálcio mais comumente usado possui carbonato de cálcio (contêm 40% de cálcio), este não terá seu efeito satisfatório em situações em que haja aumento do pH gástrico. Nestes casos, seria ideal o uso de sais que têm sua absorção em pH mais alto, como é o caso do citrato. Deve-se também levar em consideração indivíduos com doenças úlcero-pépticas que estão utilizando antiácidos, bloqueadores H2 ou bloqueadores da bomba de prótons. Os preparados com citrato têm menor proporção de cálcio; no entanto, são muito mais solúveis que o carbonato, o que os torna importantes para pacientes com hipocloridria. Todavia, em pacientes com diarréia crônica a suplementação de cálcio em forma de citrato poderá manter a diarréia.O pó de conchas de ostras já se mostrou bastante eficaz como suplemento mineral de cálcio, possuindo elevado percentual de carbonato de cálcio. Há efetivamente uma relação entre deficiência de absorção de cálcio e/ou vitamina D e perda de massa óssea; o mecanismo de absorção do cálcio é complexo e envolve a vitamina D.      


Meta-análises tem mostrado que o efeito positivo da suplementação com cálcio sobre a DMO é frequentemente observado dentre os dois primeiros anos, com pequeno benefício adicional depois disso, todavia tal efeito tem sido maior no primeiro ano de suplementação. Vale ressaltar que o remodelamento ósseo é lento, necessitando de 6 a 18 meses para alcançar um equilíbrio em resposta a um consumo alterado de cálcio. É provável que o benefício da suplementação com cálcio, observado no primeiro ano, tenha sido resultado de um remodelamento transitório, caracterizado por um aumento da densidade óssea causado por um desequilíbrio temporário entre a reabsorção, que é reduzida pelos agentes anti-reabsorção, e a formação óssea. O consumo por períodos longos, pelo menos de 2 a 3 anos, é necessário para se caracterizar adequadamente a resposta da perda óssea para alterações no consumo habitual de cálcio, mas poucos estudos têm sido realizados nesse sentido.     


Segundo a RDC nº 138, de 29 de maio de 2003, que dispõe sobre o enquadramento da categoria de venda de medicamentos, relata que as vitaminas e suplementos para auxiliar na desmineralização óssea pré e pós menopausal, não necessitam de prescrição médica.     


E segundo a RDC nº 96 de 17 de dezembro de 2008, para os medicamentos isentos de prescrição, é vedado apresentar nome, imagem e/ou voz de pessoa leiga em medicina ou farmácia, cujas características sejam facilmente reconhecidas pelo público em razão de sua celebridade, afirmando ou sugerindo que utiliza o medicamento ou recomendando o seu uso. Porém, não é isso que se observa na propaganda acima referida, pois esta utiliza a imagem da atriz Aracy Balabanian para promover seu produto. Além disso, em outra propaganda há o uso de expressões tais como: "Demonstrado em ensaios clínicos", "Comprovado cientificamente"; as quais também são vedadas segundo a RDC 96/08.      


Em vista do que foi apresentado, é possível concluir que há certa eficácia do produto de suplementação de cálcio na terapia da osteoporose e osteoporose secundária, decorrente da artrite (salientando que a farmacoterapia da artrite inclui suplemento de cálcio quando o paciente faz uso prolongado de corticóides).      
Vários estudos têm mostrado uma relação positiva entre o consumo de cálcio e a redução da perda óssea e do risco de fraturas, principalmente em indivíduos com baixo consumo desse mineral; outros trabalhos, no entanto, salientam um efeito modesto ou até a ausência de efeito. Vale ressaltar que a compreensão do papel do cálcio na redução da perda óssea, por exemplo, é comprometida em muitos estudos, pois, na maioria das vezes, os suplementos de cálcio apresentam-se associados com vitamina D. Além disso, a dose necessária para se alcançar o efeito desejado ainda é discutida. Porém alguns aspectos devem estar bem esclarecidos; a reposição de cálcio pela dieta não pode ser deixada de lado, bem como uma vida saudável (livre de álcool e fumo) e prática de exercícios físicos.    


 Apesar do suplemento de cálcio ser um produto isento de prescrição médica, é imprescindível a orientação de um profissional de saúde a respeito dos riscos da ingesta do produto, bem como posologia correta, informações sobre possíveis interações medicamentosas, etc. Outro aspecto importante é que mulheres idosas (principal alvo da propaganda) que não possuem esclarecimento suficiente sobre sua doença, seja osteoporose primária ou secundária, são facilmente levadas a comprar esse produto, que promete uma “vida sem dores” e “mais saúde pra você”. Isso é um problema, pois o produto é vendido sem prescrição e muitas idosas podem até mesmo substituir seus medicamentos acreditando nas promessas maravilhosas da propaganda. Para evitar esse tipo de problema seria recomendável um acompanhamento mais rigoroso da ANVISA, visto que alguns aspectos dessa propaganda não estão de acordo com a legislação vigente. 


BIBLIOGRAFIA 


Resolução - RDC nº 138, de 29 de maio de 2003. 


RESOLUÇÃO-RDC Nº 96, DE 17 DE DEZEMBRO DE 2008. 


H.P RANG; M.M. DALE et al. FARMACOLOGIA.VI ed, p. 466. 


Grüdtner. V.S; Weingrill. P.; Fernandes. A.L. Aspectos da absorção no metabolismo do cálcio e vitamina D. Revista Brasileira de Reumatologia – Vol. 37 – Nº 3 – Mai/Jun, 1997.


Gali.J.C. Atualização em osteoporose. Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba, v.4, n. 1-2, p. 1-5, 2002.  


Bedani. R; Rossi. E.A. O consumo de cálcio e a osteoporose. Semina: Ciências Biológicas e da Saúde, Londrina, v. 26, n. 1, p. 3-14, jan./jun. 2005. 


Nunes.L.C.C; Santana. A.K.L. et al. Obtenção de comprimidos contendo cálcio de btenção conchas de ostras: pré-formulação e liodisponibilidade comparativa. Acta Sci. Health Sci. Maringá, v. 28, n. 1, p. 49-55, 2006. 


Pereira. I. A.; Pereira. R.M.R. Osteoporose e erosões ósseas focais na artrite reumatóide: da patogênese ao tratamento. Revista Brasileira de Reumatologia, v. 44, n. 5, p. 347-54, set./ out., 2004. 


http://veja.abril.com.br/190907/p_128.shtml 


http://www.abimip.org.br/site/conteudo.php?p=conheca_o_mipx

4 comentários:

  1. Já que foi feita a pesquisa, quero saber se o super calcio d é na forma de carbonato ou citrato.

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  2. No site da CRV (www.crvnatural.com.br/novo/calciod.php), fabricante do Super Cálcio D, é informado que “SUPER CÁLCIO D é um suplemento alimentar 100% natural produzido com o puro cálcio extraído da concha da ostra e rico em vitamina D.” Respondendo a pergunta acima, o pó da concha de ostra é constituído majoritariamente por carbonato de cálcio [1].
    Referente à propaganda do produto, segundo a Resolução-RE Nº 1.318, de 28 de março de 2011 da ANVISA [2], como medida de interesse sanitário, foi determinada a suspensão, em todo território nacional, de todas as propagandas que atribuam propriedades não estabelecidas pela Legislação Sanitária vigente, divulgadas em qualquer tipo de mídia, inclusive no site www.crvnatural.com.br, e redes de televisões e rádios, ao alimento SUPER CÁLCIO D, que é dispensado de registro como Suplemento Vitamínico e ou Mineral, especialmente aquelas relacionadas ao uso desses alimentos para tratamento, prevenção e cura de osteoporose, artrite, artrose, com diminuição de dores pelo corpo, nas articulações e fraturas.
    No rótulo de suplementos, segundo a Portaria nº32, de 13 de janeiro de 1998 da ANVISA [3], é proibida toda e qualquer expressão que se refira ao uso do suplemento para prevenir, aliviar ou tratar uma enfermidade ou alteração do estado fisiológico. São permitidas somente informações sobre as funções normais cientificamente comprovadas das vitaminas e minerais, descrevendo o papel fisiológico desses nutrientes no desenvolvimento, ou em função do organismo.
    Altas concentrações de cálcio no organismo podem ser prejudiciais, especialmente para pacientes que já fazem uso de medicamentos cuja metabolização compromete a excreção renal. A ingesta excessiva de carbonato de cálcio ocasiona a elevação dos níveis séricos de cálcio, fazendo com que sua passagem pelo sistema de filtração renal se intensifique, podendo haver acúmulo de cálcio, que é o principal causador do cálculo renal. [4] Dessa forma, a seguinte informação contida no site do fabricante “SUPER CÁLCIO D vem em forma de comprimidos, não tem gosto nem cheiro, e não interfere em outros tratamentos, pois não é remédio...” não é verdadeira. Faltam informações sobre as contra-indicações.
    Não foi possível encontrar detalhes na internet sobre a composição total desse produto.

    Referências:

    [1] Lívio César Cunha Nunes, Aíla Karla Mota Santana, José Lamartine Soares Sobrinho, Mônica Felts de La Roca, Ednaldo Queiroga de Lima, Pedro José Rolim Neto. Obtenção de comprimidos contendo cálcio de conchas de ostras: pré-formulação e liodisponibilidade comparativa. Acta Sci. Health Sci - Maringá, v. 28, n. 1, p. 49-55, 2006.
    [2] Brasil. Resolução-RE Nº 1.318, de 28 de março de 2011. Diário Oficial da União n.º 60 de 29/03/2011. 2011 28 mar.
    [3]Brasil. Portaria nº32, de 13 de janeiro de 1998. A Diretoria Colegiada da ANVISA/MS Aprova o Regulamento Técnico para Suplementos Vitamínicos e ou de
    Minerais, constante do anexo desta Portaria. Diário Oficial da União de 15 de janeiro de 1998. 1998 13 jan.
    [4] Varella, D. Prevenção de cálculo renal. Disponível em: Acesso em: 16/07/2012.

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  3. Além disso, a Ingestão Diária Recomendada (IDR), segundo a ANVISA, Resolução RDC N.º 269, de 22 de setembro de 2005, para Adultos é de 1000 mg; para crianças de 4-6 anos é de 600 mg; e para crianças de 7-10 anos é de 700 mg. O site do fabricante informa que devem ser tomados três comprimidos ao dia (não ao mesmo tempo), porém não faz diferença em relação à idade, faz uma ressalva apenas em relação a gestantes, nutrizes e crianças até três anos, que somente devem consumir o produto sob orientação de um nutricionista ou médico.

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  4. A maior problematica desse e de outros suplementos é que a promessa de vida mais saudavel e boa nutriçao é passada com a ideia de que somente estes suplementos já são suficientes para obter todas as melhorias por eles garantida, o que nao é verdade. Sempre haverá necessidade de boa alimentação e prática de exercicios fisicos para prevençao e controle de doenças como a osteoporose. Os suplementos sao apenas uma aditivo para melhor garantir a demanda necessaria ao individuo de determinado componente da dieta, o qual nao é passado dessa forma para o consumidor.

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