Apresentação

Espaço para a apresentação e análise de estudos e pesquisas de alunos da UFRJ, resultantes da adoção do Método de Educação Tutorial, com o objetivo de difundir informações e orientações sobre Química, Toxicologia e Tecnologia de Alimentos.

O Blog também é parte das atividades do LabConsS - Laboratório de Vida Urbana, Consumo & Saúde, criado e operado pelo Grupo PET-SESu/Farmácia & Saúde Pública da UFRJ.Nesse contexto, quando se fala em Química e Tecnologia de Alimentos, se privilegia um olhar "Farmacêutico", um olhar "Sanitário", um olhar socialmente orientado e oriundo do universo do "Consumerismo e Saúde", em vez de apenas um reducionista Olhar Tecnológico.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Similac Sensitive®: uma alternativa para bebês intolerantes à lactose?


O índice de intolerância à lactose em recém-nascidos vem aumentando significativamente nas últimas décadas, culminando na necessidade de alternativas nutricionais para o controle dos sintomas provocados por essa sensibilidade. O Similac Sensitive® surge como uma opção de alimentação infantil de 0 a 12 meses completa, que proporciona uma melhor digestão da fórmula infantil, e acrescido de Ácido Docosahexaenóico (DHA) e Ácido Araquidônico (AA ou ARA).
Assim como o Similac Sensitive® diversas fórmulas infantis vem sendo comercializadas no âmbito de forneceram aos lactentes alimentação equivalente ao leite materno de acordo com suas necessidades nutricionais ou neste caso, fisiopatológicas, gerando uma inúmera variedade de fórmulas infantis com composições diferentes e possíveis alegações de indicações nutricionais/fisiopatológicas pelo fabricante.
De acordo com a Resolução RDC n. 45/2011, inciso I do artigo 6º, fórmula infantil para lactentes destinada a necessidades dietoterápicas específicas é aquela cuja “composição foi alterada ou especialmente formulada para atender, por si só, às necessidades específicas decorrentes de alterações fisiológicas e/ou doenças temporárias ou permanentes e/ou para a redução de risco de alergias em indivíduos predispostos de lactentes até o sexto mês de vida (5 meses e 29 dias).” Nesta classificação se enquadra o Similac Sensitive® que segundo o fabricante, em seu rótulo, a fórmula apresenta ausência de Lactose, direcionando a indicação a crianças que possuem sensibilidade a este açúcar. 
A lactose é o açúcar presente no leite materno, na concentração de cerca de 7g de lactose por cada 100ml. Está presente também no leite de vaca, cerca 5g/100 ml, e nas fórmulas infantis derivadas deste. Porém, em fórmulas com ausência de lactose, este deve ser substituído por algum outro açúcar permitido pela Anvisa, no caso do Similac Sensitive®, pela Maltodrextrina, um derivado da hidrólise do amido. Sendo importante ressaltar que o limite máximo tolerável de lactose nessas fórmulas para dietas especiais é de 10mg/100Kcal, segundo a RDC 45/2011.
As fórmulas infantis devem apresentar em seu rótulo, como previsto pela ANVISA na RDC n. 43 e 44/2011, a descrição dos ingredientes e tabela nutricional, como a demonstrada na figura abaixo. Quando são adicionados os nutrientes opcionais DHA, ARA, taurina, nucleotídeos e/ou FOS e GOS, suas quantidades também devem ser declaradas. Desta forma, a informação nutricional de fórmulas infantis deve conter, minimamente, a declaração dos seguintes nutrientes, conforme o caso: valor energético, macronutrientes e fibras; Micronutrientes, inositol e L-carnitina.

        Informação Nutricional

Quantidade por 100g
Quantidade por 100 ml
Valor Energético
510 Kcal = 2.134 KJ
68 Kcal = 284 KJ
Carboidratos
53 g, dos quais:
7,1 g, dos quais:
Açucares
2,3g, dos quais
0,3 g, dos quais:
Lactose
1,5 g
0,2 g
Proteínas
12 g
1,6 g
Gorduras totais
28 g, dos quais
3,7 g, das quais:
Gorduras saturadas
8,6 g
1,1 g
Gorduras trans
0,1 g
0 g
Gorduras monoinsaturadas
11 g
1,5 g
Gorduras poliinsaturadas
5,9 g
0,8 g
Ácido linoléico
4290 mg
570 mg
Ácido linolênico
420 mg
60 mg
Ácido Araquidônico (AA)
105 mg
14 mg
Ácido Docosahexaenóico (DHA)
52 mg
7,0 mg
Colesterol
31 mg
4,1 mg
Fibra Alimentar
1,1 g
0,2 g
Sódio
224 mg
30 mg
Taurina
34 mg
4,5 mg
L-Carnitina
7,8 mg
1,0 mg
Nucleotídeos
26 mg
2,3 mg
Potássio
737 mg
98 mg
Cloreto
407 mg
54 mg
Cálcio
534 mg
71 mg
Fósforo
381 mg
51 mg
Magnésio
38 mg
5,1 mg
Ferro
4,4 mg
0,59 mg
Zinco
4,1 mg
0,55 mg
Manganês
0,10 mg
0,01 mg
Cobre
384 mcg
51 mcg
Iodo
99 mcg
13 mcg
Selênio
18 mcg
2,4 mcg
Vitamina A
395 mcg RE
53 mcg RE
Vitamina D
6,4 mcg
0,85 mcg
Vitamina E
13 mg α - TE
1,7 mg α TE
Vitamina K
49 mcg
6,6 mcg
Vitamina C
90 mg
12 mg
Vitamina B1
0,44 mg
0,06 mg
Vitamina B2
0,75 mg
0,10 mg
Vitamina B6
0,34 mg
0,05 mg
Vitamina B12
2,2 mcg
0,30 mcg
Ácido Fólico
75 mcg
10 mcg
Niacina
4,9 mg
0,65 mg
Ácido pantotênico
3,8 mg
0,50 mg
Biotina
23 mcg
3,0 mcg
Colina
61 mg
8,1 mg
A diluição padrão do produto e de 132,9 g de pó para 1 litro de água.

Analisando a tabela nutricional do Similac Sensitive® notamos a quantidade de 0,2g, ou 200mg, de lactose por 100ml (68 Kcal) da fórmula infantil que não se enquadra na determinação da RDC 45/2011 para quantidade inferior ou igual a 100mg de lactose/100kcal, sendo portanto um valor superior ao estipulado. Além disto as informações do rótulo contradizem a tabela nutricional, uma vez que vemos a afirmativa "sem lactose" evidenciada na imagem a baixo, passando uma ideia errada ao consumidor, podendo levar a diversos problemas aos lactentes que ingerirem essa fórmula.


Na RDC 44/2011 encontramos a seguinte regulamentação: “Art. 37. Não é permitido o uso de informação nutricional complementar e de alegações de propriedades funcionais ou de saúde nos rótulos e material publicitário veiculado por qualquer meio.” Desta forma, para se adequar a essas regulamentações, as indústrias utilizam de frases sugestivas, como no caso do Similac Sensitive® - "sem lactose" - para induzir o uso por lactentes intolerantes à lactose sem evidenciar claramente essa indicação.
Portanto, podemos concluir que o produto que viria a ser uma esperança, acaba se revelando uma farsa, visando iludir os consumidores. O que pode ser comprovado com a alteração feita recentemente na fórmula, sendo vendida hoje com a indicação no rótulo da presença de lactose em sua composição. Nota-se então a necessidade de uma melhor análise da composição nutricional das fórmulas infantis e ainda a busca por regulamentações mais específicas sobre as informações presentes no rótulo.


Referências bibliográficas:
  • Perguntas e Respostas sobre Fórmulas Infantis – Anvisa. http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm /connect/1b72ce0043163045ac68bde6ad24d25c/Perguntas+e+Respostas+sobre+F%C3%B3rmulas+Infantis_3a+vers%C3%A3o_fev+2014.pdf?MOD=AJPERES
  • RDC 45/2011. http://www.ibfan.org.br/site/wp-content/uploads/2014/06/Resolucao_RDC_n_45_  de_ 19_de_ set embro_de_2011.pdf
  • RDC 44/2011. http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/b11b30804aaa974f9e ffde4600696f 00/Resolucao_RDC_n_44_de_19_de_setembro_de_2011.pdf?MOD=AJPERES
  • RDC 43/2011. http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/d8361b804aaa96d79ef6de4600696 f00/Resolucao_RDC_n_43_de_19_de_setembro_de_2011.pdf?MOD=AJPERES
  • Identidade e Legislação de Alimentos Infantis. http://www.aleitamento.com/amamentacao/con teudo.asp?cod=1531
  • INFANT FORMULA: ingredientes, mimetizações, signos e mercado. Marcia dos S. Dias e Luiz Eduardo R. de Carvalho

Autores: Evelyn Vidal e Larissa Abrahão

Um comentário:

  1. Intolerância à lactose é a incapacidade parcial ou completa de digerir o açúcar existente no leite e seus derivados. Isso ocorre quando o organismo não produz, ou produz em quantidade insuficiente, a lactase, enzima digestiva responsável pela quebra de lactose, o açúcar do leite.

    A lactase é produzida na mucosa intestinal, na zona superficial das microvilosidades do intestino delgado. Esta localização superficial torna-a vulnerável a qualquer agressão à mucosa intestinal, podendo deixar de ser produzida temporariamente até à recuperação da mucosa ou permanentemente se a lesão for irreversível.

    Sendo assim, vale ressaltar que a intolerância à lactose pode ser dividida nos seguintes tipos: 1) Deficiência congênita, na qual por um problema genético, a criança nasce sem condições de produzir lactase, sendo um tipo raro, mas crônico; 2) Deficiência primária – na qual ocorre a diminuição natural e progressiva na produção de lactase , seno este o tipo mais comum; 3) Deficiência secundária – na qual a produção de lactase é afetada por doenças intestinais, como diarreias, síndrome do intestino irritável, doença de Crohn, doença celíaca, ou alergia à proteína do leite, podendo ser nesse tipo temporária e desaparecer com o controle da doença de base.

    Assim, o Similac Sensitive® como diversas outras fórmulas infantis devem ser prescritas pelo pediatra àqueles lactentes que não apresentam uma grave intolerância à lactose. Mas sabendo que muitos consumidores fazem uso desses produtos sem consultar o médico antes, o rótulo deve alterar a chama de "sem lactose" para "baixo teor de lactose".

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