Apresentação

Espaço para a apresentação e análise de estudos e pesquisas de alunos da UFRJ, resultantes da adoção do Método de Educação Tutorial, com o objetivo de difundir informações e orientações sobre Química, Toxicologia e Tecnologia de Alimentos.

O Blog também é parte das atividades do LabConsS - Laboratório de Vida Urbana, Consumo & Saúde, criado e operado pelo Grupo PET-SESu/Farmácia & Saúde Pública da UFRJ.Nesse contexto, quando se fala em Química e Tecnologia de Alimentos, se privilegia um olhar "Farmacêutico", um olhar "Sanitário", um olhar socialmente orientado e oriundo do universo do "Consumerismo e Saúde", em vez de apenas um reducionista Olhar Tecnológico.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Balas: Novas fontes de ômega 3?

Figura 1: Bala Fini Natural Sweets Ômega 3.

O ômega 3, presente em alguns alimentos, traz diversos benefícios à saúde. Tendo isso em vista, muitas marcas da indústria de alimentos vêm adicionando esse tipo de ácido graxo a produtos como margarinas, leites, iogurtes, pães, sucos, ovos. Recentemente, foram lançadas as balas Fini Ômega 3 da linha Natural Sweets, o que levanta o seguinte questionamento: será que o consumo dessas balas contribui para alcançar os valores diários recomendados de ômega 3? 

Descrição do produto
O produto destacado é composto por balas ditas como Fonte de ômega 3, com sabor morango e limão, dispostas em pacotes de 18g.
Possui como ingredientes: Açúcar, Xarope de Glicose, Farinha de Trigo Enriquecida Com Ferro e Ácido fólico, Amido Modificado, Óleo de Peixe, Água, Gordura Vegetal Parcialmente Hidrogenada de Soja, Óleo Vegetal não Hidrogenado de Coco e Palmiste, Sal, Reguladores de Acidez: Ácido Málico e Citrato Trissódico, Gelificante: Gelatina, Acidulantes: Ácido Láctico e Ácido Cítrico, Aromas Naturais de Morango e Limão, Emulsificante: Ésteres de Mono e Diglicerídeos com Ácidos Graxos, Umectante: Glicerina, Antioxidantes: Lactato de Sódio e Ascorbato de Sódio e Corante Natural Antocianina.
Sua tabela nutricional que encontra-se abaixo é apresentada no verso da embalagem do produto:


Tabela 1: Informações nutricionais Bala Fini Natural Sweets Ômega 3

Fundamentos Bromatológicos
Os ácidos graxos ômega-3 são uma classe essencial de ácidos graxos polinsaturados, nos quais a primeira dupla ligação, a partir do grupo metila se encontra no carbono 3. Dentre esses ácidos graxos, os considerados clinicamente importantes incluem: ácido alfa linolênico (ALA; 18:3), ácido eicosapentanoico (EPA; 20:5) e ácido docosahexaenoico (DHA; 22:6) (Figura 2).



Figura 2: Estrutura química de três ácidos graxos ômega 3. Disponivel em: < http://www.saberatualizado.com.br/2016/03/o-omega-3-previne-problemas-cardiacos.html>.

Estudos epidemiológicos têm demonstrado que a ingestão regular de peixe na dieta tem efeito favorável sobre os níveis de triacilgliceróis, na pressão sanguínea, no mecanismo de coagulação, no ritmo cardíaco, na prevenção do câncer de cólon e na redução da incidência de aterosclerose (Santos & Bortolozo, 2008).
As fontes dos ácidos graxos ômega-3 são:
·         Ácido alfa linolênico: encontrado em folhas verdes e em sementes oleaginosas, como também na semente de linhaça, mostarda e óleo de soja;
·         Ácido docosahexaenoico e Ácido eicosapentaenoico (EPA): presentes principalmente nos peixes de aguas frias (como a cavala, o arenque e o salmão). Os peixes brancos magros (como bacalhau e linguado) contém apenas quantidades pequenas de EPA e DHA;
Nos casos de deficiência de ômega 3, o indivíduo pode apresentar ansiedade, hiperatividade e prejuízo de cognição (Bondi et al., 2013). Em relação à toxicidade, quando consumido em altas quantidades, o ômega 3 pode causar um impacto negativo no tempo de coagulação, na peroxidação lipídica, na função imune e no metabolismo lipídico e de glicose, sendo estabelecido pelo FDA um consumo máximo de 3g/dia.

Legislação
De acordo com a RDC n. 54/2012, para que haja alegações nutricionais do tipo “Fonte de ômega 3” em alimentos, estes devem conter o valor mínimo de 40 mg de EPA e DHA por porção do alimento.
Quanto à definição de porção, a RDC 359/2003 na qual é apresentado o Regulamento técnico de porções de alimentos embalados para fins de rotulagem nutricional, define como “quantidade média do alimento que deveria ser consumida por pessoas sadias, maiores de 36 meses de idade em cada ocasião de consumo, com a finalidade de promover uma alimentação saudável”. Conforme essa RDC, balas, pirulitos e pastilhas, que são alimentos de consumo ocasional, estão enquadrados no grupo de alimentos VII – Açúcares e produtos que fornecem energia provenientes de carboidratos e gorduras, e portanto devem conter 20g por porção (é permitida variação máxima de ± 30% em relação ao valor em gramas ou mililitros estabelecido para a porção do alimento).
Devido ao surgimento de numerosas evidências de benefícios à saúde associados ao EPA e DHA, diversas agências e organizações ao redor do mundo estabeleceram recomendações diárias para EPA e DHA, a fim de que haja promoção da saúde e redução do risco de doenças crônicas. A ingestão adequada (AI) de Ácido alfa linolênico (um tipo de ácido graxo ômega 3 de origem vegetal) determinada pelo Institute of Medicine of the National Academies é de 1,6 g/dia para homens entre 19 e 70 anos, e 1,1 g/dia para mulheres entre 19 e 70 anos. Ainda segundo esse mesmo Instituto, o Intervalo de distribuição aceitável de macronutrientes (AMDR) é de 0.6–1.2% de energia, onde 10% do AMDR de ácido alfa linolênico pode ser consumido na forma de EPA e/ou DHA. Além disso, a American Dietetic Association (ADA) recomenda consumo de 500 mg/dia de EPA e DHA.

Discussão
As balas Fini ômega 3 apresentam 56 mg de ômega 3 por porção de 18 g, estando de acordo com a RDC n. 54/2012 ao defini-las como fonte desse tipo de ácido graxo polinsaturados.
Em sua composição, destaca-se o óleo de peixe como fonte de ômega 3, contendo portanto EPA e DHA. Tendo como base a recomendação de consumo diário de 500 mg/dia de EPA e DHA, para alcançar esse valor apenas pelo consumo desses pacotes de 18g, seria necessário o consumo de aproximadamente 9 pacotes, resultando em uma alta ingestão de carboidratos e outros nutrientes. Apesar de ser principalmente encontrados em peixes, EPA e DHA também estão presentes em outras fontes de origem animal, que são exemplificadas na Tabela 3 (Martin et al., 2006).


Segundo dados divulgados pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura em 2013, o consumo per capita de peixe no Brasil é de 9 Kg/ano, valor abaixo dos 12 Kg/ano recomendados pela OMS, ressaltando a importância da introdução de alternativas alimentares contendo ômega 3. Além disso, foi apresentado em 2013 no Simpósio Latino Americano de Ciências de Alimentos um estudo onde aponta maior consumo de ômega 3 pela população jovem brasileira (1,25 g/dia) quando comparado com adultos e idosos. Esse mesmo estudo atribui o resultado a uma maior ingestão de produtos industrializados, como salgadinhos e biscoitos.

Conclusão
Apesar da pequena quantidade de ômega 3 presente nas balas Fini em questão, existe uma contribuição para que haja ingestão adequada de ômega 3, porém deve ser feito o consumo complementar de outros alimentos contendo ômega 3.

Referências
1.      AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução RDC n. 359, de 23 de Dezembro de 2003. Aprova Regulamento Técnico de Porções de Alimentos Embalados para Fins de Rotulagem Nutricional. Diário Oficial da União, Poder Executivo, de 26 de dezembro de 2003.
2.      AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução RDC n. 54, de 12 de novembro de 2012. Dispõe sobre o Regulamento Técnico sobre Informação Nutricional Complementar. Diário Oficial da União, Poder Executivo, de 13 de novembro de 2012.
3.      BONDI, C. O. et al. Adolescent behavior and dopamine availability are uniquely sensitive to dietary omega-3 fatty acid deficiency. Biological psychiatry, v. 75, n. 1, 2014.
4.      Disponível em: < http://www.onu.org.br/consumo-per-capita-de-peixes-cresce-no-brasil-diz-fao/>. Acesso em: 05/01/2016.
5.      FOOD AND DRUG ADMINISTRATION. Letter Regarding Dietary Supplement Health Claim for Omega-3 Fatty Acids and Coronary Heart Disease. 2000, 34p.
6.      INSTITUTE OF MEDICINE. Food and Nutrition Board. Dietary Reference Intakes for Energy, Carbohydrate, Fiber, Fat, Fatty Acids, Cholesterol, Protein, and Amino Acids. Washington, DC: National Academy Press, 2005, 1357p.
7.      KRIS-ETHERTON, PENNY M. et al. n-3 Fatty Acids: Food or Supplements? Journal of the American Dietetic Association, v. 108, n. 7, p. 1125 – 1130, 2008.
8.      MARTIN, C. A. et al.  Ácidos graxos poliinsaturados ômega-3 e ômega-6: importância e ocorrência em alimentos. Revista de nutrição, v. 19, n. 6, p. 761-770, 2006.
9.      SANTOS, L. E. S.; BORTOLOZO, E. A. F. Q. Ingestão de ômega 3: considerações sobre potenciais benefícios no metabolismo lipídico. Publicatio UEPG Ciências Exatas e da Terra, Agrárias e Engenharias, v. 14, n. 2, p. 161-170, 2008. 
10. SANTOS, M. A.; RIZZATO, G. T. Estimativa da ingestão de ácidos graxos trans, ômega 6 e 3 pela população brasileira. Disponível em: https://proceedings.galoa.com.br/slaca/slaca-2013/trabalhos/estimativa-da-ingestao-de-acidos-graxos-trans-omega-6-e-3-pela-populacao-brasileira>. Acesso em: 05/01/2016. 

2 comentários:

  1. Muito interessante o trabalho apresentado, desconhecia dessa bala com Ômega 3.
    Porém fica o questionamento, vale a pena o consumo desta bala com o ômega 3, mesmo tendo outros ingredientes como áçucar, corantes, acidulantes e outras coisas que se consumidos em grande quantidade não seria tão bom para a saúde?
    Esse trecho do texto acho que responde o questionamento "Tendo como base a recomendação de consumo diário de 500 mg/dia de EPA e DHA, para alcançar esse valor apenas pelo consumo desses pacotes de 18g, seria necessário o consumo de aproximadamente 9 pacotes, resultando em uma alta ingestão de carboidratos e outros nutrientes."
    O consumidor talvez sem muita instrução e com pouco conhecimento talvez poderia fazer um consumo muito alto deste produto, por ser vendido como um produto com ômega 3 e aparentemente saudável mas por outro lado ter um aumento da glicose.
    O ideal é que o fabricante informe todas essas questões ao consumidor e que a pessoa também busque outros meios de consumo de ômega 3 como por exemplo os citados no texto: peixes, semente de linhaça e outro. Desta forma as pessoas irão obter ômega 3 e de uma forma mais saudável.

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  2. Definitivamente não vale a pena, maior enganação.

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