Apresentação

Espaço para a apresentação e análise de estudos e pesquisas de alunos da UFRJ, resultantes da adoção do Método de Educação Tutorial, com o objetivo de difundir informações e orientações sobre Química, Toxicologia e Tecnologia de Alimentos.

O Blog também é parte das atividades do LabConsS - Laboratório de Vida Urbana, Consumo & Saúde, criado e operado pelo Grupo PET-SESu/Farmácia & Saúde Pública da UFRJ.Nesse contexto, quando se fala em Química e Tecnologia de Alimentos, se privilegia um olhar "Farmacêutico", um olhar "Sanitário", um olhar socialmente orientado e oriundo do universo do "Consumerismo e Saúde", em vez de apenas um reducionista Olhar Tecnológico.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Salgadinhos industrializados: o consumo desses alimentos pode contribuir para a obesidade infantil?



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         Figura 1- Imagem ilustrativa de uma criança consumindo
 salgadinho e Fandangos de milho sabor queijo.

A obesidade na infância vem atingindo proporções alarmantes, deixando de ser apenas um problema relacionado com a estética da criança e tornando-se uma grande complicação para a saúde pública. O excesso de peso pode provocar o surgimento de diversos agravos na saúde da criança, como diabetes e doenças cardiovasculares. Em geral, as crianças ganham peso com bastante facilidade por conta de fatores, como: hábito alimentar inadequado, inclinação genética, sedentarismo e distúrbios psicológicos. Então, dentro do contexto da alimentação, será que o salgadinho de milho, alimento muito presente na dieta de uma criança, interfere de forma negativa em sua saúde?
Como evidenciado no relatório da Comissão pelo Fim da Obesidade Infantil (da sigla em inglês, ECHO) de 2016, ao menos 41 milhões de crianças entre a faixa etária de 0 a 5 anos são obesas ou apresentam sobrepeso, sendo que o maior aumento é evidenciado em países de renda baixa e média, principalmente por viverem em ambientes que estimulam o ganho de peso e a obesidade. Por sua vez, no Brasil, há uma frequência bastante aumentada de obesidade com o passar das décadas, como evidenciado na Figura 2 (Monteiro et all., 2002).

Figura 2- Prevalência, em porcentagem, de obesidade e desnutrição
em três décadas, em duas regiões do Brasil.

Impulsionadas pela globalização e industrialização, as crianças acabam se tornando vítimas das propagandas de alimentos pouco saudáveis para a sua saúde, que seria o caso de salgadinhos de milho industrializados. Esse tipo de alimento não é proibido de ser consumido, sendo o grande problema a quantidade de ingestão diária, que, quase sempre, é ultrapassada e não é balanceada com outros alimentos.
Dessa forma, o presente trabalho tem por objetivo verificar a quantidade de nutrientes presentes no salgadinho de milho Fandangos de queijo, comparar com a quantidade de ingestão diária recomendada para crianças e verificar se o consumo está acima do normal.

  1. Descrição do produto:

Como exemplo de um salgadinho de milho bastante consumido, tem-se o Fandangos sabor queijo, 59g, da empresa Pepsico.


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Figura 3- Salgadinho de milho Fandangos sabor queijo.

Como ingredientes, o presente trabalho apresenta: farinha de milho fortificada com ferro e ácido fólico, óleos vegetais de girassol (70%) e palma (30%), preparado para salgadinho sabor queijo (sal, cloreto de potássio, soro de leite, maltodextrina, realçador de sabor glutamato monossódico, aromatizante, acidulante ácido cítrico, antiumectante dióxido de silício, corante natural urucum e corante caramelo) e sal.
Na Tabela 1, encontram-se as suas informações nutricionais, podendo ser verificada no verso da embalagem do produto:
                   
                                   Tabela 1: Informações nutricionais do salgadinho
                                                    de milho  Fandangos sabor queijo.

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  1. Fundamentos Bromatológicos e Legislação:

Uma das grandes preocupações em relação ao consumo de salgadinhos de milho é em relação a quantidade de sódio presente nesses alimentos. Como já comentado anteriormente, o padrão de consumo inadequado pode acarretar em doenças bastante preocupantes e um aumento na ingestão de sódio, nutriente bastante encontrado nesse tipo de alimento, constitui um fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), hipertensão arterial, doenças renais etc. (Yang et all., 2012)
Um estudo realizado entre os anos de 2008 e 2009 da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) indica que 83% dos meninos de 10 a 13 anos das áreas urbanas consomem sódio acima do nível máximo de ingestão tolerável, que seria algo em torno de 2.200 mg. Por conta disso, o Ministério da Saúde (MS), em 2012, assinou um termo de compromisso com a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (ABIA), a Associação Brasileira das Indústrias de Massas Alimentícias (ABIMA), a Associação Brasileira da Indústria de trigo (ABITRIGO) e a Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (ABIP) com o objetivo de estabelecer metas nacionais para redução do teor de sódio presente em diversos alimentos, bem como nos salgadinhos de milho.
No Informe Técnico (IT) nº 69 de 2015, a Anvisa se encarregou de averiguar o teor de sódio em diversos alimentos, inclusive nos salgadinhos de milho. Os resultados contemplaram a análise de 27 produtos diferentes e o teor médio de sódio encontrado foi de 841 mg/100g, apresentando resultados que variaram entre 413 mg até 1.659 mg. De acordo com o segundo termo de compromisso assinado entre o MS e as associações, os salgadinhos de milho deveriam atingir o teor máximo de 1.090 mg/100 g até dezembro de 2012. Observa-se que na média (841 mg/100g) os produtos atingiram a meta, no entanto, quatro marcas apresentaram valor superior ao teor máximo, como pode-se observar na Figura 4.

Figura 4- Teor de sódio em 27 produtos de salgadinho de milho.

De acordo com a Resolução nº 273, de 2005, sobre misturas para o preparo de alimentos e alimentos prontos para o consumo, determina que alimentos semi-prontos ou prontos para o consumo são os alimentos preparados ou pré-cozidos ou cozidos e que para o seu consumo não necessitam da adição de outros ingredientes. Podem requerer aquecimento ou cozimento complementar e devem ser designados por denominação consagrada pelo uso. A designação pode ser acrescida de expressões relativas aos ingredientes que caracterizam o produto, processo de obtenção, forma de apresentação ou característica específica.
Em relação a sua definição, segundo a Resolução nº 12 de 1978, salgadinhos são produtos que contêm condimentos, substâncias alimentícias normais desses tipos de produtos; apresentam-se geralmente sob formas variadas e tamanhos bem pequenos.

  1. Discussão:

Então, de acordo com o segundo termo de compromisso assinado entre o MS e as associações, o teor máximo de sódio estabelecido para salgadinhos de milho foi de 1.090 mg/ 100g. Em relação ao exemplo selecionado no presente trabalho, 25 g de Fandangos sabor queijo apresenta o quantitativo de 157 mg, ou seja, 628 mg/100g, e, em um pacote de 59 g, há uma quantidade de 370,52 mg de sódio. Dessa forma, o salgadinho de milho Fandangos de queijo encontra-se dentro do limite permitido para o teor de sódio.
De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, da sigla em inglês), os níveis de ingestão de sódio indicados para crianças são os enumerados na Tabela 2.

Tabela 2: Ingestão diária de sódio recomendada para crianças até 13 anos. (Fonte: USDA)

Como pode-se observar na Tabela 2, o valor médio de ingestão adequada de sódio por dia para crianças de 1 a 13 anos é de 1.300 mg/ dia, ou seja, o referente a 3 pacotes e meio do salgadinho de milho Fandangos de queijo. No entanto, é importante lembrar que o consumo desse tipo de alimento geralmente vem acompanhado do consumo de outras fontes ricas em sódio e açúcar como, refrigerantes, doces, massas instantâneas, pizzas, queijos, pães etc., o que contribui bastante para atingir o nível máximo permitido por dia. Lembrando também que o consumo de mais de um pacote por dia é bastante frequente no cotidiano das crianças.
Estudos realizados no Reino Unido e Austrália indicam que há uma relação bastante forte entre excesso de consumo de sódio na dieta  e aumento no consumo de bebidas ricas em açúcar, funcionando como uma resposta da ativação de um gatilho homeostásico, o que, por sua vez, aumentam as chances de desenvolvimento de obesidade. No entanto, um mecanismo detalhado para essa relação ainda não é muito bem compreendido (Grimes et all., 2013).
De forma bastante importante, sabe-se que há uma relação entre o consumo exagerado de sódio por crianças com a exposição que são submetidas, seja em casa, na escola, em shoppings etc. Dessa forma, é muito importante que haja uma redução da propaganda desses tipos de alimentos, bem como um maior controle da presença desse tipo de refeição em escolas, haja vista o grande tempo que as crianças encontram-se no ambiente escolar.
Por sua vez, os Ministérios da Saúde e Educação anunciaram tomar medidas  que visam ampliar o monitoramento da obesidade entre alunos de escolas públicas e impedir a venda de alimentos ultra processados nestes locais, como os salgadinhos de milho e refrigerantes. Esse tipo de medida é vital para promover um maior controle da obesidade infantil.

  1. Conclusão:

Por conseguinte, a obesidade infantil é um problema bastante delicado e sério, sendo de vital importância a ajuda médica e dos pais, sempre visando a qualidade de vida da criança. Como pode-se observar no presente trabalho, o consumo de alimentos ricos em sódio, como os salgadinhos de milho, é bastante preocupante por aumentar a ingesta de sódio, aumentando as chances de desenvolvimento de obesidade, bem como de doenças ateroscleróticas, hipertensão etc. No entanto, há formas bastante eficazes de tentar reduzir o consumo desse tipo de alimento por crianças, podendo começar pela diminuição a oferta em escolas, por exemplo.

  1. Referencias:

1- American Academy of Pediatrics. Obesity in Children. Pediatric Nutrition Handbook. Illinois: AAP; 1998. p. 423-58. 22. Dietz WH. Childhood weight affects adult morbidity and mortality. J Nutr. 1998;128(2 Suppl):S411-14.


2- Committee on Nutrition. Prevention of Pediatric Overweight and Obesity. Pediatrics. 2003;112(2):424-30

Dietz WH. Childhood weight affects adult morbidity and mortality. J Nutr. 1998;128(2 Suppl):S411-14.

3- Fontanive RS, Costa RS, Soares EA. Comparison between the nutritional status of eutrophic and overweight adolescents living in Brazil. Nutr Res. 2002;22:667-8.

4- Grimes C, Riddell LJ, Campbell KJ, Nowson CA. Dietary salt intake, sugar-sweetened beverage consumption, and obesity risk. Pediatrics 2013;131(1):14-21. Available from: http://pediatrics.aappublications.org/content/1 31/1/14.full.pdf+html

5- Informe Técnico n° 69/ 2015. Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/documents/33916/388729/Informe+T%C3%A9cnico+n%C2%BA+69+de+2015/85d1d8f0-5761-4195-9aee-e992abd29b3e> Acessado em 28 de abril de 2017.

6- Mello ED. Obesidade. In: Ferreira CT, Carvalho E, Silva LR, editors. Gastroenterologia e hepatologia em pediatria: diagnóstico e tratamento. São Paulo: Medsi, 2003. p. 341-4.

7- Monteiro CA, Conde WL, Popkin BM. Is obesity replacing or adding to undernutrition? Evidence from different social classes in Brazil. Public Health Nutr. 2002;5(1A):105-12
8- Report of the Commission Ending Childhood Obesity, de World Health Organization. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/204176/1/9789241510066_eng.pdf?ua=1&ua=1> Acessado em 27 de abril de 2017.

9- Resolução- CNNPA- n° 12/1978. Dispinível em: <http://www.anvisa.gov.br/anvisalegis/resol/12_78_biscoitos.htm> Acessado em 28 de abril de 2017.


10- Resolução n° 273, de 22 de setembro de 2015, da ANVISA. Disponível em: <http://www.saude.rj.gov.br/comum/code/MostrarArquivo.php?C=MjIzOA%2C%2C> Acessado em 27 de abril de 2017.





13- Yang Q, Zhang Z, Kuklina E, Fang J, Ayala C, Hong Y, et al. Sodium intake and blood pressure among US children and adolescents. Pediatrics. 2012;130(4):611-9. Disponívem em: from: http://pediatrics.aappublications.org/content/1 30/4/611.full.pdf+html

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