Apresentação

Espaço para a apresentação e análise de estudos e pesquisas de alunos da UFRJ, resultantes da adoção do Método de Educação Tutorial, com o objetivo de difundir informações e orientações sobre Química, Toxicologia e Tecnologia de Alimentos.

O Blog também é parte das atividades do LabConsS - Laboratório de Vida Urbana, Consumo & Saúde, criado e operado pelo Grupo PET-SESu/Farmácia & Saúde Pública da UFRJ.Nesse contexto, quando se fala em Química e Tecnologia de Alimentos, se privilegia um olhar "Farmacêutico", um olhar "Sanitário", um olhar socialmente orientado e oriundo do universo do "Consumerismo e Saúde", em vez de apenas um reducionista Olhar Tecnológico.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Água mineral versus Água potável: Qual seria mais saudável?

      Muitas pessoas acreditam que a água mineral é mais saudável comparada à água potável proveniente do sistema de abastecimento local. Porém, deve-se avaliar a composição química, propriedades físico-químicas e microbiológicas para se estabelecer uma relação direta com a saúde.
     
      A legislação Brasileira mais recente sobre água mineral natural, RDC Nº 274 de 2005 (ANVISA), não revoga o Decreto-lei nº 7.841 de 1945, conhecido como “Código das Águas Minerais", o qual classifica os diferentes tipos de água comercializados. Porém, esta RDC faz apenas considerações quanto à definição dos diferentes tipos de águas comercializados. Estes tipos são Água Mineral Natural, Água Natural, Água Adicionada de Sais e o Gelo para consumo humano.
       Assim, as definições de águas comercializadas de 1945 continuam valendo. A água mineral natural é proveniente de fontes naturais ou de fontes artificialmente captadas e que possua composição química ou propriedades físicas ou físico-químicas distintas das águas comuns, com características que lhes confiram uma ação medicamentosa. Compreende-se pela última definição, que a água mineral poderia ser interpretada como um “fármaco”, já que teria ação medicamentosa. Existem vários tipos de águas minerais dentre elas a água radífera, que contém substâncias radioativas dissolvidas, a água ferruginosa (contém no mínimo 0,005 g do cátion ferro (Fe) por litro), a água carbogasosas (contém 200 mL de gás carbônico livre dissolvido, a 20°C e 760 mm de Hg de pressão por litro) entre outras.
       Existem também as águas potáveis de mesa, que apresenta composição normal proveniente de fontes naturais ou de fontes artificialmente captadas que preencham tão somente as condições de potabilidade para a região. A diferença entre água mineral e água de mesa é a ação medicamentosa, já que a água de mesa é uma simples água potável. Além desses 2 tipos de água, existe ainda a água adicionada de sais que deve possuir pelo menos 30 mg/L de algum dos sais de bicarbonato, carbonato, cloreto, sulfato ou citrato. Esta água não deve conter açúcares, adoçantes, aromas ou outros ingredientes.
       O consumidor precisa ficar atento ao rótulo das águas envasadas, pois dependendo do tipo e fornecedor, a composição nutricional é diferente, sendo mais saudável a que possui valores de sais, íons e características físico-químicas compatíveis com a dieta necessária (Tabela 1). Pessoas que fazem dieta com restrição de sódio não devem ingerir água com alto teor de sódio, o valor deste íon deve ser observado na tabela de composição química.
       Conclui-se a partir da tabela 1 que apesar de ambas as águas serem minerais naturais, a variabilidade na composição química é significativa. A legislação vigente (RDC Nº 274 de 2005) somente delimita limite máximo das substâncias que devem estar presentes e/ou ausentes e não um valor mínimo ou faixa aceitável, sendo permitida esta variabilidade. Mais ainda, não há especificação de casas decimais para informação das quantidades das substâncias (mg/mL), a marca DAFÉ, por exemplo, utiliza 2 casas decimais em todos os analíticos, enquanto a marca Da Montanha menciona 3 casas decimais em alguns analíticos, uma medida mais acurável. Também importante é o montante de analíticos mencionados, a água DAFÉ não menciona a quantidade de sulfato, brometo e estrôncio. Dentre as duas marcas mencionadas, a água Da Montanha seria a mais balanceada eletroliticamente e, portanto mais saudável. Para o consumidor leigo decidir a melhor água a adquirir, deve-se interpretar dados da composição química, fato impraticável. Assim, a legislação deve ser mais restrita para que não ocorram tantas variabilidades que impliquem na qualidade da água e saúde do consumidor.

Tabela 1: Comparação da composição química de duas marcas de águas minerais naturais. Observa-se grande diferença na quantidade dos componentes. A água DAFÉ possui reduzida quantidade de substâncias dissolvidas em relação à água Da Montanha. Destaca-se que a água DAFÉ possui aproximadamente 21 vezes menos de conteúdo de bicarbonato do que a água Da Montanha. Além disso, o conteúdo de Cálcio, um importante íon na dieta, é 82 vezes menor na água DAFÉ.


      Ainda segundo esta RDC, no rótulo das águas não deve constar qualquer expressão que atribua ao produto propriedades medicamentosas e ou terapêuticas. Porém, observam-se muitas águas com expressões de cunho religioso ou que aludem a uma vida saudável constituindo dano ao consumidor que pode ser estimulado a comprar por um rótulo não fidedigno (Figura 1 e Figura 2).


Figura 1: Águas minerais naturais brasileiras. A água “DAFÉ” sugere religiosidade, além do nome sugestivo há uma pomba branca no rótulo que pode indicar paz. Esta água provém da fonte Olhos D'Água, outro nome sugestivo, pois popularmente se fala que os olhos são a janela da alma. A água mineral Da Montanha provém da Fonte Sant'Anna, um nome relacionado à religiosidade, enquanto o rótulo deveria ter conotação neutra.


Figura 2: Rótulo de águas minerais naturais. A água Legítima sugere uma ótima procedência e autenticidade. Já a água Vida Leve, sugere que esta água seria mais light e mais adequada a um estilo de vida saudável. Enquanto ambas deveriam ter um rótulo neutro, sem viés de informações.


      Uma questão interessante sobre a água ocorre na Escócia, Reino Unido. A água fornecida pelo sistema de abastecimento Escocês é de ótima qualidade, pois provém de lagos naturais, lagos subterrâneos, lagos artificiais e reservatórios. A água que vem das torneiras é potável, portanto pode ser bebida sem problemas e seria equivalente a composição nutricional qualitativa da água mineral vendida no Brasil. Porém, muitas pessoas, especialmente turistas, consideram que a água envasada seria de melhor qualidade e adquirem em grandes quantidades. Isto ocorre pela falta de informação do consumidor e rótulos que induzem informações errôneas que aludem a uma vida saudável. Ambas as águas escocesas (vendidas e sistema de abastecimento) passam pelos mesmos processos:
  1. “Screening" (Triagem) - remoção de folhas, galhos e sujeiras grosseiras são removidas por peneiras;
  2. Clarificação - A lama e o lodo são removidos. Alúmén (sulfato de alumínio) e cal (hidróxido de cálcio) são adicionados para floculação de partículas grosseiras, estabilização e/ou espessamento e desidratação de lodo antes da eliminação. O resíduo é descartado em um aterro sanitário, onde novamente retorna a lama;
  3. Filtração - Um filtro de areia especial remove os últimos pedaços de cascalho e alguma cor remanescente;
  4. Desinfecção - A água agora parece limpa, mas ainda pode conter microrganismos como bactérias. Uma pequena quantidade do íon cloreto e adicionada para matar as bactérias;
  5. Correção do pH - A água ainda e muito ácida para ser ingerida, por isso também adiciona-se cal (hidróxido de cálcio) para tornar a água menos ácida e menos corrosiva para os tubos metálicos. Devido a um tratamento eficiente e de qualidade, a água encanada da Escócia, agora, já está pronta para beber.
      Estimativas da ONU sugerem que no mundo, 170 crianças morrem por hora devido a doenças decorrentes do consumo de água imprópria. Além disso, um estudo de 2007 da Royal Geographical Society, Inglaterra, considera que a água potável contaminada por arsênio, o que ocorre principalmente na Ásia e na África, poderá elevar a incidência de câncer. 
       A resposta para avaliação da água mais saudável para consumo está na avaliação da composição química e propriedades físico-químicas. Além disso, a dieta é o indicativo para escolha da água mais adequada. A legislação Brasileira deve ser mais rigorosa e delimitar melhor parâmetros que implicam na qualidade da água e consequentemente na saúde da população.



Referências Bibliográficas: 
BRASIL. Decreto-Lei nº 7.841, de 8 de julho de 1945. BRASIL. Portaria nº 2.914, de 12 de dezembro de 2011. 

 BRASIL. Resolução - RDC nº 274, de 22 de setembro de 2005. BRASIL. Resolução - RDC nº 275, de 22 de setembro de 2005. BRASIL. Portaria MME nº 470, de 24 de novembro de 1999.

 Sistema de Abastecimento de Água Escocês. Disponível em: http://www.scottishwater.co.uk/ 
 Acesso em 12/08/2013. 

  Água mineral Highlander Spring. Disponível em: http://www.highland-spring.com/our-water/
  Acesso em 12/08/2013.

  Água mineral e água de mesa: Serviço Geológico do Brasil. Disponível em:      http://www.cprm.gov.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1299&sid=129 
 Acesso em 14/08/2013. 

  A guerra da água mineral. Disponível em:  http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/conteudo_262606.shtml?func=2 
 Acesso em: 17/08/2013.

12 comentários:

  1. De fato o marketing feito pela indústria em produtos como a água tem uma grande influência sobre o consumidor, uma vez que todos buscam consumir aquilo que consideram de melhor qualidade ou mais saudável segundo o seu entendimento, e baseado nisso a indústria se aproveita do marketing para vender seus produtos e acaba tornando a função da legislação brasileira , que é de assegurar a segurança do consumidor estabelecendo normas para a venda desses produtos , falha no que diz respeito a este assunto. Uma vez que temos produtos com nomes que induzem as pessoas a pensar que aquele produto é mais saudável, isso acaba impedindo que as pessoas comprem o produto pelo que ele realmente é, devendo para isto ler as informações nutricionais descritas no rótulo, pois estas sim podem direcionar alguém à compra de um produto que será o mais saudável para ela. Por exemplo, uma pessoa que faz uso de diuréticos como a Espironolactona que gera como efeito adverso a hipercalemia, não deveria consumir uma água com altos índices de potássio, diuréticos como a Furosemida, que podem gerar como efeito adverso uma alcalose metabólica (sangue com caráter básico) (Goodman & Gilman. As bases Farmacológicas da Terapêutica, Editora MAC GRAW HILL - 11a Edição - 2006), deveriam evitar águas como a Da Montanha que apresenta um alto teor de bicarbonato, desta forma sim a segurança do consumidor poderia ser garantida. Isto mostra como a Legislação pode ser falha em seu objetivo neste ponto, devendo estabelecer normas mais rigorosas para impedir que as pessoas atribuam atividades medicinais a água apenas por olhar aquela lista imensa de íons que apresenta sem saber o que eles podem causar em seu organismo de fato.

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  2. Sou jornalista, como posso entrar em contato com voces?
    annevigna@gmail.com

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  3. A água mineral natural, como citado no post, por legislação, deve possuir "características que lhes confiram uma ação medicamentosa". Essa afirmativa pode induzir um pensamento nos consumidores de que, necessariamente, a água mineral natural é melhor que as outras, que trará sempre efeito benéfico, uma vez que apresenta ação medicamentosa. Esse tipo de conclusão é extremamente perigoso, pois além de precipitada, uma vez que a ação medicamentosa vai sempre depender do estado de saúde do consumidor, pode induzir um consumo elevado e desnecessário desse tipo de produto. Muito cuidado deve ser tomado ao se comprar e consumir água mineral natural. Como muito bem comentado por nosso colega Felipe, pacientes com hipercalemia devem evitar águas minerais com alto teor de potássio. Essa linha de pensamento deve ser aplicada a qualquer outro tipo de distúrbio hidroeletrolítico. Outro exemplo seriam pacientes com recidivas ou histórico familiar de cálculo renais. Seria apropriado esses pacientes fazerem uso de água com altas concentrações de cálcio? Seria apropriado hipertensos ingerirem águas com altos níveis de sódio? Seria apropriado pacientes com osteoporose fazer uso de água com baixas concentrações de cálcio? Certamente a resposta seria não. Devido a água ser um componente tão básico (e que deveria estar disponível a todos, em teoria) nas nossas vidas diárias, talvez uma menor importância seja dada pelos consumidores para realizar a análise crítica dos rótulos. Como demonstrado pelo post acima, água não é tudo igual. É só comparar os rótulos que isso será notório. Portanto basta a nós, consumidores, temos uma visão mais crítica quanto a isso, sempre pedindo auxílio a um profissional de saúde, caso não tenha muitos conhecimentos sobre o assunto. E é nesse ponto que nós, farmacêuticos, podemos ser extremamente úteis. Não é só um favor, é uma obrigação, como parte da atenção farmacêutica.

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  5. É extremamente importante que tenha uma legislação mais rígida no que diz respeito ao controle da composição da água comercial. O consumidor, leigo, acaba achando que todas elas são iguais por se tratarem de água e não se preocupam em ler o rótulo. Dessa forma, ele pode ser prejudicado, conforme citado acima, caso faça uma dieta pobre em sódio por motivos de saúde e esteja ingerindo, sem saber, água rica em sódio. Por não saber interpretar o rótulo e as possíveis consequências do produto para a sua saúde, o consumidor acaba sendo induzido pelo marketing feito pelas indústrias. Assim, quem fica prejudicado é o consumidor.

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  7. Aluna: Andressa Barros D. de Souza. DRE: 110129920

    Á água oferecida pela rede pública geralmente é captada em rios, lagos e represas muitas vezes poluídas.
    Para que ela se torne potável para o consumo, ela passa por um complexo sistema de tratamento, onde são acrescentados alguns produtos químicos.
    Já existem estudos americanos que comprovam que o consumo "in natura" desta água pode causar doenças como diarréias, viroses e outras. Já está comprovado que o consumo de água com altos teores de cloro é cancerígeno. Já os filtros e purificadores que existem hoje no mercado nacional, (segundo testes feitos pelo Inmetro e divulgados via internet), quando novos, absorvem apenas 92% de todo o cloro existente na água do serviço público. Há também informações constando que após seis meses sem manutenção no aparelho, os sistemas internos dos purificadores ficam sem ação e acumulam algas que formam lodo, alterando o paladar do líquido. Já a Água Mineral Natural, como o próprio nome diz é purificada pela própria natureza.

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  8. Como o assunto é qual tipo de água consumir, considero atual falar da água alcalina. Muita gente pensa que água é tudo igual, o que não é verdade. Ela pode ser mineral, purificada, filtrada, termal, efervescente, de geleira. E ainda pode ser dividida em neutra (pH 7), ácida (pH abaixo de 7) e alcalina (pH acima de 7). A que apresenta pH acima de 7 tem sido apontada como uma forma de hidratação que promete muitos benefícios ao organismo. A água alcalina é ideal porque termina equilibrando o organismo, já que muitos hábitos contemporâneos estimulam a acidez. Alguns deles são dormir pouco, abusar de café, manter uma dieta não balanceada com refrigerantes e bebidas alcoólicas e passar por períodos de estresse. O problema é que o pH ácido aumenta a ação dos radicais livres. Para combater esses vilões do envelhecimento, é preciso aumentar o pH do organismo, para então atingir o equilíbrio. E a água alcalina tem justamente esta função: combater a acidez gerada pelos (maus) hábitos cotidianos, restabelecendo o pH neutro. Como podem ver, só se fala bem dessa “nova onda”, quase uma água milagrosa. Aí eu me pergunto: beber uma água alcalina traria só benefício? Em bases científicas aceitas no mundo todo, afirmam que aumentando a alcalinidade da água nenhum benefício real será acrescentado à água e nem à saúde das pessoas, pois o estado natural do estômago é ser sempre ácido. Se o pH do meio aumenta, o estômago simplesmente bombeia mais ácido clorídrico e volta ao normal. A água alcalina pode perturbar o sistema digestivo, aumentando o pH do estômago e prejudicando o processo digestivo dos alimentos. O equilíbrio ácido-básico do organismo é dado por meio de alimentos alcalinizantes, e não pela água alcalina. O suco de limão, por exemplo, de pH ácido, possui poder altamente alcalinizante do organismo; a água de côco, de pH ácido, também tem um poder alcalinizante fantástico, entre outros exemplos de frutas cítricas com alto poder alcalinizante do corpo. É o que os especialistas chamam de alimentos funcionais, que promovem a prevenção e cura de doenças como se fossem verdadeiros remédios. Se você se alimenta com frutas e verduras que contém fibras alcalinas, o efeito é verdadeiramente antioxidante e purificador do organismo. A melhora na saúde é conseguida por ingerir mais água e não por ela ser alcalina. Beber bastante água ajuda os rins na função de purificar o corpo, mas não necessita ser água alcalina, simplesmente água potável e bem tratada.

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    1. Parabéns pela explanação.

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    2. Parabéns e obrigada. Tem sempre alguém querendo empurrar algum produto para consumidores "desprevenidos". E como pode um leigo se previnir contra as propagandas enganosas com que são bombardeados? Confiar nas autoridades? Acho que não... Está cada vez mais difícil separar o joio do trigo nesse planeta onde as raposas é que se encarregam de tomar conta do galinheiro.
      Isso foi um desabafo.

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  9. eu sempre pensei que água potável era ruim.....

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  10. Alguém poderia me explicar a ação do potássio na água? Em que situações a quantidade do mesmo seria prejudicial ou saudável ao consumidor?

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