Apresentação

Espaço para a apresentação e análise de estudos e pesquisas de alunos da UFRJ, resultantes da adoção do Método de Educação Tutorial, com o objetivo de difundir informações e orientações sobre Química, Toxicologia e Tecnologia de Alimentos.

O Blog também é parte das atividades do LabConsS - Laboratório de Vida Urbana, Consumo & Saúde, criado e operado pelo Grupo PET-SESu/Farmácia & Saúde Pública da UFRJ.Nesse contexto, quando se fala em Química e Tecnologia de Alimentos, se privilegia um olhar "Farmacêutico", um olhar "Sanitário", um olhar socialmente orientado e oriundo do universo do "Consumerismo e Saúde", em vez de apenas um reducionista Olhar Tecnológico.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

MARGARINA BECEL PRO-ACTIV: UM ALIMENTO FUNCIONAL

              DESCRIÇÃO DO PRODUTO

Na década de 50, a Unilever desenvolveu a margarina Becel que, ao contrário da manteiga, da banha e de outras margarinas do mercado, continha em sua formulação gorduras poliinsaturadas (Ômega 3 e Ômega 6), auxiliares na redução do colesterol sanguíneo. Inicialmente, Becel era comercializada em farmácias, sob prescrição médica, para pessoas com alto risco de doenças cardiovasculares. Logo se percebeu, porém, que os benefícios à saúde pública seriam maiores se o produto fosse vendido em larga escala. Assim, Becel – cujo nome se originou de B-C-L, iniciais de “Blood Cholesterol Lowering” (diminuição do colesterol sanguíneo) – tornou-se disponível como alimento, sem restrição de consumo.
Nas décadas de 80 e 90, novos comportamentos colocaram o corpo em evidência. A mídia passou a debater assuntos relativos à saúde e a discutir questões antes restritas ao universo médico, como as doenças cardíacas. O combate à obesidade, ao tabagismo e ao sedentarismo entrou na pauta das conversas do dia a dia. E o colesterol, palavra antes desconhecida, incorporou-se de vez ao vocabulário da maioria das pessoas. As mudanças favoreceram Becel, que a partir de meados dos anos 80 começou a adquirir uma imagem positiva entre os consumidores, conforme revelavam as pesquisas de mercado. A propaganda buscou uma nova linguagem, fugindo do conceito de produto medicinal para ressaltar a seriedade de Becel e o aspecto da prevenção de doenças.
Na virada do milênio, a qualidade de vida despontou como meta prioritária, sobretudo para as populações das grandes cidades. Apostar numa vida longa e saudável implicava, para muitos, em rever hábitos, começando por assumir uma dieta balanceada. Novidade entre os brasileiros, os alimentos funcionais – que, além de cumprir seu papel nutricional, produzem efeitos benéficos à saúde – passaram a ser divulgados e recomendados. Em sintonia com essa demanda do consumidor moderno, Becel lançou a variante Pro-Activ em 2000. A novidade do produto era a fórmula com fitoesteróis, substâncias extraídas de óleos vegetais que inibem a absorção do colesterol ruim no intestino. O diferencial fez de Becel Pro-Activ o primeiro alimento funcional aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – órgão ligado ao Ministério da Saúde.

FUNDAMENTOS BROMATOLÓGICOS

Considerados uma das últimas inovações da indústria de alimentos, os alimentos funcionais (AF) compõem um segmento de mercado que vêm crescendo rapidamente, alcançando taxas de crescimento de 14% ao ano. 
Para a ANVISA, uma alegação de propriedade funcional “é aquela relativa ao papel metabólico ou fisiológico que o nutriente ou não nutriente tem no crescimento, desenvolvimento, manutenção e outras funções normais do organismo humano”; enquanto que uma alegação de propriedade de saúde “é aquela que afirma, sugere ou implica a existência de relação entre o alimento ou ingrediente com doença ou condição relacionada à saúde” (ANVISA, 1999). Um produto não necessita deste registro para ter em sua composição um nutriente “funcional” – proteína de soja, fibras alimentares ou outros – este registro é necessário para que uma empresa alegue – na embalagem de um produto ou em campanhas publicitárias – que seu produto contém propriedades funcionais – dizeres como fonte de fibras ou auxilia na redução do colesterol, por exemplo – desta forma, o controle das alegações visa impedir que os produtores exibam ao público informações cientificamente infundadas e/ou confusas.
A ANVISA reconhece, até o momento, as seguintes alegações: Ácidos graxos (Ômega-3); Carotenóides (Licopeno, Luteína, Zeaxantina); Fibras Alimentares (Fibras Alimentares, Dextrina Resistente, Frutooligossacarídeo, Goma Guar Parcialmente Hidrolisada, Inulina, Lactulose, Polidextrose, Beta Glucana, Psillium); Fitoesteróis; Proteína de Soja; Quitosana; Polióis (Manitol, Xilitol, Sorbitol); Probióticos.
A margarina Becel Pro-Activ, por ser adicionada de ômega-3 e de fitoesteróis, substâncias extraídas de óleos vegetais que inibem a absorção do colesterol ruim no intestino, é  um alimento funcional aprovado pela ANVISA. 

LEGISLAÇÃO PERTINENTE

Informações nutricionais importantes acerca de um produto são encontradas em seu rótulo e servem para especificar seu conteúdo e auxilia o consumidor na hora da compra, pois para escolher o produto mais adequado deve-se analisar e compreender tais informações. O termo light é sinônimo de “reduzido”, e é usualmente empregado com o objetivo de fornecer informações complementares de um ou mais componentes presentes no alimento em questão, portanto, é classificado como Informação Nutricional Complementar (INC).
              A redução em um produto light não se restringe apenas às quantidades de gorduras, podendo ter também redução no valor energético, açúcares, gorduras totais, gorduras saturadas, sódio e colesterol. Entretanto, para que o alimento seja classificado como “light”, deve haver redução de, no mínimo 25% no valor energético em relação ao alimento convencional. De acordo com o Regulamento técnico de Informação Nutricional Complementar – INC (Resolução RDC n. 54/2012), o rótulo de um produto que promete ser “light ou reduzido” deve informar a diferença em %, fração ou valor absoluto no valor energético ou conteúdo dos nutrientes entre os alimentos comparados. Sendo assim, o produto deve conter, além do termo “light”, a informação de quanto foi a redução e em qual nutriente constituinte. Por ex: “Light” – 29% menos sódio.
              Deve-ser esclarecer que a Informação Nutricional Complementar é uma avaliação qualitativa, pois fornece a qualidade nutricional específica do alimento e não todas as características do mesmo. Ou seja, saber se um alimento é mais nutritivo que outro usando apenas uma INC é inviável, pois um alimento cujo rótulo possui a afirmação “não contém gorduras”, pode apresentar quantidades elevadas de açúcares e sódio.

ANÁLISES E COMENTÁRIOS

Uma pesquisa realizada em fevereiro de 2004 pelo Idec em conjunto com a Consumentenbond (associação de consumidores da Holanda), revelou que a quantidade de gorduras trans presente nas margarinas e cremes vegetais, que foram objeto do estudo, varia muito de uma marca para outra. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Anvisa, o consumo de gorduras trans não deve ultrapassar 1% do total de calorias ingeridas por dia ou 2 g. As dez amostras analisadas pelo Idec estavam de acordo com esse padrão, porém, as diferenças constatadas entre as marcas comprova que a informação sobre a quantidade de gorduras trans nos rótulos dos alimentos é fundamental para orientar a escolha do consumidor, como mostrado na tabela a seguir:


Porém, a margarina da marca Qualy, fabricada pela Sadia, apresentou uma quantidade expressivamente mais elevada de gorduras trans que as demais marcas. Embora os porcentuais não tenham ultrapassado os limites recomendados, se um indivíduo ingerir uma porção de 10 g (o equivalente a 1 colher de sopa) dessa marca de margarina por dia, terá, conforme a Anvisa, uma margem muito pequena para consumir outros produtos que também contenham gorduras trans. É importante lembrar que as gorduras trans estão presentes em grande parte dos alimentos industrializados, como biscoitos (principalmente os recheados), bolos, pães, salgadinhos, massas em geral, cremes, sorvetes etc. Dessa forma, é bastante provável que o consumidor acabe ultrapassando o limite diário de ingestão se consumir 10 g de um único produto com os teores apresentados pela margarina Qualy. Resultados mais satisfatórios foram obtidos por duas marcas de creme vegetal (Becel e Becel Pró-Activ) e outra de margarina (Doriana Light), todas fabricadas pela Unilever Best Foods Brasil. Os três produtos apresentaram os menores índices de gorduras trans da amostragem, contribuindo muito pouco para atingir o consumo máximo diário dessas substâncias.
O estudo também avaliou a relação existente entre as quantidades de gorduras totais e as de gorduras trans (Tabela a seguir). Nesse aspecto, as margarinas Vigor, da Cia. Leco de Prod. Alim., e Primor Happy Day, da Bunge Alimentos, apresentaram as maiores relações entre as duas categorias de gorduras, ou seja, ambas possuem, proporcionalmente, os maiores teores de gorduras trans em relação à quantidade total de gorduras existente nas amostras.


A margarina Becel, que se apresenta no mercado como um produto “recomendado para quem deseja controlar os níveis de colesterol e faz uma dieta de baixas calorias”, alegando que 52% dos lipídeos presentes são poliinsaturados, além de ser complementada com vitaminas, apresenta como substituinte da gordura trans, a gordura interesterificada, empregada com o objetivo de fornecer uma consistência adequada da margarina.
            A interesterificação de triglicerídeos é um processo que também leva ao ‘endurecimento’ de óleos vegetais, pelo rearranjo dos ácidos graxos na cadeia do glicerol em uma molécula de triglicerídeo, sem a formação de ácidos graxos trans. 
            Para analisar a natureza “saudável” desse novo processo, SUNDRAM, Kalyana et. al. realizou uma comparação entre os ácidos graxos trans e as gorduras interesterificadas com uma gordura saturada não modificada, quanto ao impacto nos lipídeos sanguíneos e na glicose plasmática. Tratou-se de um ensaio clínico cruzado onde 30 voluntários humanos foram alimentados com dietas com controlado teor de gordura total (aprox. 31% da energia diária, sendo que mais de 70% era o tipo de gordura do teste (óleo de palma, gordura trans ou gordura interesterificada) e composição de ácidos graxos, por um período de 4 semanas. Com a análise do estudo, viu-se que ambas as gorduras modificadas (trans e interesterificada) alteraram o metabolismo das lipoproteínas plasmáticas e da glicose sanguínea. Ou seja, tal estudo mostra que o que era pra ser uma alternativa às gorduras trans também pode ser igualmente prejudicial.
Portanto, conhecendo-se os malefícios em termos de saúde inerentes às gorduras trans, o processo de fabricação das margarinas já não passa pela fase de hidrogenação. A alternativa utilizada é dita “mais saudável”, porém o estudo citado acima mostrou que a interesterificação pode apresentar danos aos consumidores. Sendo assim, o consumidor deve ter ciência do que está adicionando em sua dieta e cabe às legislações determinar a necessidade de fornecer informações a respeito das gorduras trans e interesterificadas nos rótulos dos produtos. Portanto, para poder identificar qual produto melhor se enquadra às necessidades individuais, é importante analisar as informações nutricionais contidas nos rótulos dos alimentos embalados, sendo direito do consumidor adicionar ou excluir de sua alimentação tais produtos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.      Consumo e Saúde: Alimentos diet e light – entenda a diferença. OUVIDORIA/ANVISA E DPDC/SENACON – Ano 5 N.33, Dezembro de 2013

2.      Resoluções da Anvisa: Res n. 54, de 12 de novembro de 2012. Res n. 259, de 20 de setembro de 2002. Res n. 123, de 13 de maio de 2004. Portaria n. 29, de 13 de janeiro de 1998. Manual de Orientação aos Consumidores – Educação para o Consumo Saudável - Anvisa. Lei 8.078/90 (CDC) art.4° caput, incisos I a III; art6°I, II, III; art 8°, art.10 e art.18.

3.      SUNDRAM, Kalyana; KARUPAIAH, Tilakavati e HAYES, KC. Stearic acid-rich interesterified fat and trans-rich fat raise the LDL/HDL ratio and plasma glucose relative to palm olein in humans. Nutr Metab. 2007.

4.      SBAF. O que são Alimentos Funcionais. Disponível em: < http://www.sbaf.org.br/alimentos_funcionais.htm>. Acesso em: 25 Nov 2015.

5.      POLLAN, Michael. Em Defesa da Comida. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008. 272p.

6.      GRISOTTI, M. et al . OS ALIMENTOS FUNCIONAIS EM SUPERMERCADOS NO BRASIL E NA HOLANDA: Análise sociológica da construção social das alegações de saúde e o seu papel nas políticas de saúde pública e no perfil das escolhas dos consumidores. 2010c.

7.      COPPENS, Patrick. The Impact of the Nutrition and Health Claims Regulation on the Food Industry. 2007

Por Priscila Alves e Rafael Moreira.

6 comentários:

  1. A solução encontrada pela indústria de alimentos para substituir a gordura trans, é um processo altamente industrializado, chamado interesterificação. O processo químico que produz gordura interesterificada é um tanto complicado, mas, essencialmente, um óleo vegetal natural como o de girassol é combinado com ácido esteárico e vários catalisadores alcalinos. A gordura interesterificada apresenta várias vantagens para os fabricantes de alimentos processados- aumento do tempo de prateleira do produto e sabor semelhante ao da gordura animal.
    A gordura interesterificada não estará discriminada no rótulo do alimento. Se o indivíduo tem por hábito ler rótulos de produtos que compra no supermercado, não adianta procurar por gordura interesterificada no rótulo porque não vai encontrar. Na prática, se o rótulo do alimento processado contém óleo vegetal como ingrediente, ou gordura vegetal hidrogenada, certamente indica que o indivíduo estará consumindo ou gordura interesterificada ou gordura trans.

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  2. Os produtos que se utilizam da ferramenta citada acima no comentário da colega Anne Gomes, ao “substituir a gordura trans pela gordura interesterificada, fazem uso da alegação “0% de gordura trans”. Esta alegação conduz a mensagem ao consumidor de que tais produtos estariam isentos de efeitos prejudiciais associados às gorduras trans (principalmente os efeitos cardiovasculares amplamente descritos e discutidos). Não seria esta informação, todavia, equivocada ou ao menos precipitada?
    Esta alegação, que culmina numa ideia de alimentos “mais saudáveis”, leva o consumidor leigo à ideia de que poderia consumir quantidades maiores uma vez que o produto, teoricamente, “não faz mal” por não ter a mais conhecida vilã gordura trans. O consumo excessivo aumenta ainda mais a exposição aos riscos ainda não determinados do uso destes produtos, superestimando, talvez, seus benefícios à saúde.
    Além disso, alguns estudos associam as gorduras interesterificadas a desvios no metabolismo do açúcar e na função pancreática, com comprometimento da produção de insulina e elevação dos níveis plasmáticos de glicose.

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  3. Através da excelente discussão do trabalho, pode-se perceber que a solução encontrada para possíveis problemas causados pela gordura trans também apresenta riscos. Além dos riscos cardiovasculares presentes também no consumo de gordura trans, as gorduras interesterificadas também já foram associadas a disfunções pancreáticas, tendo como consequência elevadas taxas de glicose. A margarina Becel faz sua publicidade baseada em garantir que o consumo irá manter o coração saudável, “Becel, ame seu coração” ou “Becel para o coração saudável”, de forma que fica claro a necessidade de atualizações das legislações vigentes, de modo a garantir que o consumidor tenha consciência do produto que está sendo adquirido.

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  4. Através do estudo podemos afirmar que o que faz da margarina becel pro-activ um alimento funcional é a adição de fitoesteróis,que são extratos naturais de óleos vegetais, são substâncias que auxiliam na redução da absorção de colesterol e contribuem para a redução do LDL. Por essa razão é um alimento que, além das funções nutricionais básicas, quando consumido como parte da dieta usual, produz efeitos metabólicos e/ou fisiológicos e/ou benéficos à saúde.

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  5. Atraves de analises realizadas por vários analistas, foi visto que
    os porcentuais não ultrapassam os limites recomendados pela anvisa de gorduras trans em margarinas de diversas marcas, porém se um indivíduo ingerir uma porção de 10 g (o equivalente a 1 colher
    de sopa) de margarina por dia, terá, conforme a Anvisa, uma margem muito pequena para consumir outros produtos que também contenham gorduras trans. E isso que se torna perigoso no consumo diário.
    A OMS recomenda que a ingestão de gordura trans não ultrapasse 1% do valor calórico da dieta. Numa dieta de 2000 calorias diárias, sua ingestão de trans não deve ultrapassar 2g. E visando melhorar a saúde da população, já existem substitutos para a gordura trans. Um processo chamado 'interesterificação' solidifica os óleos vegetais, sem que eles tenham que ser hidrogenados. Porém, ainda são poucos os alimentos produzidos por esse processo. Alguns ácidoss graxos extraídos do óleo de palma também são bons substitutos da trans.

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  6. Alguém saberia me informar se, apesar de tudo isso, o melhor seria consumir a manteiga extra em pouca quantidade ?

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